Dial P for Popcorn: Ninho de Cucos (II)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Ninho de Cucos (II)

Aquilo que interessa num filme é a história. A opinião que temos de um filme baseia-se essencialmente na forma como as nossas experiências pessoais anteriores se associam com aquilo que nos é contado, e na maneira como essa relação é capaz de nos gerar emoções. Daí surge a importância do argumento no cinema, pois é a partir dele que este processo de sensibilização e transformação se inicia no espectador e como tal torna-se lógico compreender que o  conteúdo da história é a peça mais elementar de toda a árvore cinematográfica, enquanto que a forma constitui simplesmente o seu adorno.

O cineasta contudo é um ser humano, e como tal encontra-se condenado à fatídica maldição da nossa espécie que nos impede de reportar uma história exactamente da mesma forma que ela nos foi transmitida. Mais do que isso o cineasta é um ser artístico, e portanto vê nessa maldição uma necessidade imperiosa de acrescentar um ponto a cada conto, desvirtuando e transformando a ideia inicial bruta numa peça de arte genuína. Na verdade a forma é o resultado do trabalho do artista representando muito mais que o papel de simples adorno. A forma é, ao fim e ao cabo, aquilo que torna uma boa história num bom filme! 


Na verdade, um filme razoável, mas com bons planos de filmagem e boas interpretações, pode superiorizar-se a uma história épica cantada sem a devida pompa. O prazer de ver um filme bem filmado assemelha-se ao prazer de descobrir interesses em comum com um amigo, ou ao prazer de encontrar uma rapariga cujas formas respeitam na perfeição a sua beleza. Em suma, o estilo pode não dar corpo à história mas dá-lhe acima de tudo interesse. 

Aquilo que quero dizer é que há uma grande diferença entre um bom argumento e um bom filme. Comparemos por exemplo, Goodfellas (1990 - Martin Scorsese), um épico do cinema, com Zodiac (2007 - David Fincher) uma interessante trama protagonizado por Jake Gyllenhall. Ambos os filmes baseiam-se em histórias verídicas relacionadas com o mundo do crime (o primeiro relacionado com a Mafia, o segundo sobre um Serial Killer), já com uma extensa tradição de sucesso no universo da sétima arte. A verdadeira diferença entre um e outro está exactamente na forma como o drama se desenrola. Enquanto que o primeiro explora vários estilos de narração, apresentando os vários momentos da história numa toada sempre encadeada e cativante, o último agarra-se demais à história original levando o desenrolar da mesma para um tom demasiado morno e inconsequente (ainda que entrecortado por cenas de grande suspense), sem preocupação em dramatizar o rumo dos acontecimentos, o que não faz justiça ao argumento original e torna o filme numa desilusão!


E afinal a história não é o mais importante num filme.

Presentemente, com os avanços ao nível dos Audiovisuais, o público mostra-se cada vez mais exigente, e a holywoodização da sétima arte faz com que haja cada vez mais preocupação em satisfazer as necessidades estéticas do auditório, e cada vez menos com o enriquecimento do enredo. O estímulo visual é sobrevalorizado. E assim se justifica o crescente interesse nos HDs, 3Ds e outros Ds que por aí estejam para vir. Não que a estimulação sensorial deva ser menosprezada no cinema, mas deve ser deixada para quem a domina e percebe que esta deve ser feita de forma ponderada e desprovida da intenção de se sobrepor à qualidade da narrativa, mas antes com o intuito de valorizar e enriquecer impacto da mesma.


Avatar, por exemplo, um esforço estético a todos os níveis louvável, uma proeza magnífica ao nível da animação, não deixa de ser uma obra incompleta e obsoleta! O empenho imprimido no alcance de semelhante resultado visual não é de maneira alguma reciprocado na preocupação com a catarse da narrativa, que não passa de uma adaptação da história da Pocahontas com homens azuis e naves espaciais. Para mim ver este filme é como comer cereais sem leite ou ir ao cinema e não comprar pipocas. A desproporção entre a qualidade visual da qualidade narrativa é desmesurada, o que para mim torna o trabalho de James Cameron num desperdício de talento e recursos.

Por outro lado, temos Quentin Tarantino, um mestre nesta área, capaz de conjugar sequências de combate magnificamente coreografadas com sumarentos diálogos em enredos nunca aborrecidos, sem com isto comprometer a excelência cosmética do seu trabalho. Nem mesmo a constante obsessão com violência extrema e vistosos jarros de sangue estraga as brilhantes interpretações que sempre consegue arrancar de actores como Uma Thurman ou Harvey Keitel. Vejamos Kill Bill, um filme onde desde o início se verifica essa preocupação tarantinesca em contar uma história acima de tudo com um estilo inaudito, conseguindo sempre evitar mergulhá-la no ridículo, ao manter o espectador ligado a uma torrente de episódios visceralmente sensibilizantes. Tudo isto acompanhado sempre de uma qualidade de efeitos sonoros e visuais tão superiormente masterizados que hipnotizam o espectador a acreditar que se encontra perante um drama sem par.



E aí reside a essência do argumento que tento escarafunchar neste cortejo de parágrafos. Embora o argumento do filme seja vital para o sucesso do mesmo, a responsabilidade da qualidade (ou inexistência dela) recai sempre naquele a quem cabe a tarefa de fazer a adaptação da história original para a película final, pois o modo como o faz condiciona a forma como o auditório tem acesso ao conteúdo da narrativa, e isto, no cinema, é tudo! E assim se justifica como Tarantino consegue criar um filme de culto, mesmo com uma história vulgar ao ponto de se poder adivinhar o seu desfecho a meio da mesma. 

Agora se querem gastar dinheiro com megalomanias como Avatares, ou esbanjar boas histórias como Zodiacs, podiam era fazer um favor ao adolescente de 13 anos dentro de mim e fazer um American Pie todos os anos.

Gustavo Santos

5 comentários:

DiogoF. disse...

O Paul Schrader tem uma teoria muito interessante. Cada vez mais as pessoas vêem os filmes em ecrãs pequenos (tantas, em computador), pelo que o argumento voltará a ganhar uma preponderância de maior. Mas compreendo o ponto de vista do autor e concordo com grande parte (vem-me sempre à cabeça o "True Romance"). E já farto estou eu de sair de um mau filme português e a justificação (a tal "indulgência patriótica) ser "ah, mas tem uma boa fotografia.".

Gustavo Santos disse...

Curioso esse seu último argumento.
Depois de ter ido ver o "Florbela", lembro-me de ter comentado no fim algo desse género, na ânsia de encontrar uma perspectiva que me permitisse recordar o tempo perdido de uma forma positiva.
No dia seguinte, em reflexão compreendi o tal cariz chauvinista e indulgente do que tinha dito, e daí surgiu a ideia para a crónica deste mês.

M.Z. disse...

O Quentin Tarantino é sem duvida um dos melhores se não o melhor nos argumentos e nos tais pormenores sonoros que são especialmente notórios nos Kill Bill.

DiogoF. disse...

Gustavo,

Precisamente por já me ter sentido assim ;)

Jorge Rodrigues disse...

Além dos excelentes exemplos dados, concordo absolutamente quando dizes que o valor de um filme reside muito no argumento em si E sobretudo no que o realizador e sua equipa conseguem arrancar da sua adaptação para a tela.

E o Diogo tem razão, esse é um dos principais problemas do cinema português. O Nicolau Breyner bem tenta dizer que o cinema português não vende porque não é acessível, tem alguma razão nisso, grande parte dos filmes portugueses têm muita convolução e pouco conteúdo, «uma linda fotografia e música», se quisermos. Manoel d'Oliveira é a epítome disso mesmo. Agora, no fundo, é uma questão de gosto. Há cinema português bom e mau. O Nicolau não tem é razão nenhuma quando fala do cinema português comercial como exemplo do que devemos fazer para importar para o estrangeiro o nosso produto, porque eu ainda estou para ver um filme português comercial com qualidade. E não é de maneira nenhuma uma vergonha para o nosso cinema, uma vez que digam lá do ano passado quanto cinema comercial americano valeu a pena? De entre 100, salvam-se quê, 10 filmes? Penso que a falta de imaginação, a falta de rigor da escrita e sobretudo a falta de qualidade da realização hoje em dia é brutal.

Há grandes realizadores. Há. Mas é um grupo restrito. O que mais há por aí são pseudo-realizadores que mal sabem como filmar uma cena, quanto mais montar um filme inteiro. Por cada Quentin Tarantino, temos um Ron Howard.

Enfim. Isto tudo para dizer fundamentalmente duas coisas:
1) concordo com o artigo e congratulo-te por ele e
2) eu sem um bom argumento não vivo, é a primeira coisa que eu avalio num filme.


Cumprimentos,

Jorge Rodrigues