Dial P for Popcorn: 2011

sábado, 31 de dezembro de 2011

Último Artigo de 2011


Pois bem, o que se esperava ser uma época apertada de estudo para exames acabou mesmo por ser ainda pior do que imaginávamos. E assim ficamos pela dezena de artigos publicados em Dezembro. Pedimos desculpa a quem segue o blogue pela infrequência da publicação de novos artigos, com a promessa que em 2012 vamos fazer melhor. 

Queremos aproveitar para agradecer a todos quantos contactaram, de uma forma ou outra, com este blogue durante 2011 e nos ajudaram a crescer. E queremos sobretudo desejar bom ano novo e boas festas para todos os leitores, colaboradores e amigos do Dial P For Popcorn!

Que 2012 nos traga muito e bom cinema e televisão!

Em Janeiro, o que esperar cá pelo blogue: mais críticas (de "A Dangerous Method" a "Carnage"), revisão do ano de 2011, os melhores na televisão em 2010-2011, os melhores no cinema para mim e para o João, talvez uma pequena reunião do "10 for the Oscars - Oscars for 10", nova cerimónia dos TCN Blog Awards, novas rubricas e muito mais.

Esperamos que voltem connosco depois da passagem de ano para um ano que esperamos que seja ainda melhor que 2011!

domingo, 18 de dezembro de 2011

DRIVE (2011)



AVISO: Se não viram o filme ainda... Parem de ler aqui e vão vê-lo. Todos os outros: prossigam.




"I give you a five-minute window, anything happens in that five minutes and I'm yours no matter what. [...] I don't carry a gun... I drive."

Um homem no meio da escuridão atende um telefone no seu quarto de hotel. Ele está sozinho e sozinho ele ficará, apesar das muitas pessoas que vão entrar e sair da sua vida ao longo do filme. É conhecido como o Driver, porque é isso que ele faz. De dia, é um duplo para cenas de acção (as habituais stunts) e mecânico. De noite, é o condutor de um veículo de fuga que ajuda vários tipos de actividades ilegais. Ele não é um criminal - ele só conduz. É assim, ao som de "Nightcall" de Kavinsky, uma das poucas canções que consta na brilhante banda sonora retro, sintética de Cliff Martinez, que o Driver liga o carro, carrega no acelerador e avança, nunca mais olhando para trás.  "DRIVE" começa em cima e nunca desacelera, presenteando-nos com uma hipnótica, íntima, épica homenagem aos filmes de acção e violência metropolitanos de Michael Mann e William Friedkin (entre outros) dos anos 80 e à vida nocturna da cidade de Los Angeles. Carregado de adrenalina e testosterona "Drive" é uma verdadeira prenda para cinéfilos que há muito tempo aprenderam a amar os thrillers noir de Hollywood tal como Refn deve ter amado um dia.



Outro detalhe que me deleitou imenso foi a caracterização do nosso protagonista. Nunca sabemos o nome dele, nem dados sobre a sua família ou a sua história - só sabemos que é conhecido por Driver. E isso basta. Tudo aquilo que é preciso saber sobre a personagem está na sua obsessão por palitos, na sua escolha arrojada de vestuário de trabalho (um casaco branco com um escorpião dourado no seu dorso) e sobretudo nos olhos do actor que o interpreta. Ryan Gosling tem uma característica distintiva que instantaneamente nos atrai nele e que faz dele uma das estrelas mais excitantes da sua geração - é a plenitude, o mistério nos seus olhos. Em Gosling, Nicolas Winding Refn encontrou o parceiro perfeito para complementar o seu estilo: ninguém poderia interpretar este personagem tão cool, de expressão facial vazia, impenetrável, que poucas palavras diz, como Gosling o faz. É difícil dizer o que vai nos seus olhos azuis - o que o faz simultaneamente intrigante e intimidante. Nas poucas vezes que o Driver deixa transparecer a sua humanidade, quando Irene e Benicio (o filho de Irene) se encontram em perigo, é desconcertante vê-lo, periclitante, baixar a guarda e a arriscar-se por eles. Uma maravilhosa interpretação, a sua melhor este ano.


Para contrastar com o enigmático Driver, temos um grupo riquíssimo de actores secundários que dão ressonância emocional a um filme já de si poderoso à custa do seu estilo e da sua confiança, fazendo-nos preocupar com as pessoas que entram e saem da vida dele. Isto deve-se em absoluto ao calibre e talento do grupo de actores envolvidos, capazes de dar voz, sensibilidade e criar, de parcos momentos no ecrã, uma personagem completa, com uma história de vida sobre a qual adoraríamos saber mais se houvesse tempo. Carey Mulligan interpreta eficientemente a sua vizinha Irene, mulher casada e mãe de Benicio e empregada de mesa que vira o alvo improvável dos afectos do nosso protagonista, que se vê envolvido num negócio complicado com o marido de Irene, "Standard" (fantástico Oscar Isaac), acabado de sair da prisão. A outra ligação de Driver com o mundo do crime é Shannon (um esplêndido Bryan Cranston, que possui uma química brutal com Gosling), o seu chefe e agente, que o apresenta a duas figuras poderosas: o barulhento e rude dono de uma pizzaria, Nino (Ron Perlman) e o seu irmão Benny Rose (Albert Brooks), um homem pequeno mas ameaçador que esconde um talento para a violência brutal por detrás da sua cara feliz e satisfeita. É estranhamente excitante - mas nada divertido - vê-lo em acção. Christina Hendricks (que interpreta uma colaboradora de Nino, Blanche), finalmente, é particularmente divertida de observar na sua pequena cena.






Trabalhando a partir de uma história muito simplista baseada no romance de James Sallis de 2005 com o mesmo nome e adaptado para o grande ecrã pelo argumentista Hossein Amini (nomeado para Óscar por "The Wings of the Dove"), Nicolas Winding Refn aproveita a oportunidade para impressionar com o seu luxuoso, selvagem, arriscado sentido visual, a sua construção a passo rápido e os seus incríveis instintos, mais controlado e disciplinado aqui do que em "Valhalla Rising", o seu último filme, mas também infinitamente mais inspirado e electrizante aqui. O trabalho de Newton Thomas Sigel atrás da câmara também deve ser valorizado, oferecendo ao filme uma fotografia densa, rica, estilizada e cuidada que fica impregnada na mente muito depois do filme terminar. A cena do elevador é um excelente exemplo do quão exímio foi o trabalho de ambos. Fotografia icónica ao serviço da narrativa, mostrando a colisão entre os dois mundos em que Driver está envolvido e os riscos a subir em flecha. Crédito deve ser dado também a Cliff Martinez e às equipas de som, por extraordinariamente mostrar-nos as situações em torno do Driver como se lá estivéssemos.


Viciante, intenso, belo, genial e acima de tudo satisfatório, "Drive" é uma experiência verdadeiramente única, que satisfaz a sede do espectador por adrenalina e sangue e emoção e nos deixa no fim a mente - e o pulso - a mil por minuto. E tudo o que eu conseguia pensar era em ver o filme de novo. Depois de obviamente o ter feito, uma consideração ficou clara na minha consciência: acho que encontrámos a obsessão cinematográfica desta geração. E acredito que "Pulp Fiction" e Quentin Tarantino (para mim, o último revolucionário moderno a criar tanto impacto na cultura pop do seu tempo) não podiam estar mais satisfeitos com o seu sucessor.



Nota Final:
A-

Informação Adicional:
Realização: Nicolas Winding Refn
Argumento: Hossein Amini
Elenco: Ryan Gosling, Albert Brooks, Carey Mulligan, Ron Perlman, Bryan Cranston, Christina Hendricks, Oscar Isaac
Música: Cliff Martinez
Fotografia: Newton Thomas Sigel


domingo, 11 de dezembro de 2011

HABEMUS PAPAM (2011)



Foi um verdadeiro prazer ver o mais recente filme do Mestre Moretti. Mestre sim, porque é um indivíduo cheio de particularidades, manias e adereços, que o tornam uma figura empática para com o grande público, com filmes distintos e cativantes. Mas afirmações controversas à parte, Habemus Papam é uma divertida comédia negra, que aconselho sinceramente ao leitor preparado para se surpreender com a ousadia da escrita de Moretti, com a atmosfera circense que se instala num Vaticano sem Rei nem Rock.


Temos então o final de um ciclo. A morte do Papa João Paulo II obriga que os cardeais se reúnam no seu sigiloso conclave, afastados do mundo, afastados da tensão exterior, do público que ansiosamente espera pela aclamação do novo líder da Igreja Católica. Nesta misteriosa reunião, o espectador é convidado. E aqui começa tudo. Um novo ciclo, um novo papa. A eleição de Michel Piccoli como novo sumo pontífice, marca o início de uma história que contagia sem complexos o leitor. O novo papa, aterrorizado com a dimensão da sua tarefa, ainda em choque com a sua inesperada escolha, claudica no momento de se apresentar aos seus súbditos.


Sem hipóteses de resignar ao seu cargo, mais por embaraço do que por falta de vontade, o novo Papa isola-se e o seu staff trata de encontrar o melhor psicólogo da cidade para o poder tranquilizar, para o poder compreender, para o conduzir ao caminho certo, da aceitação e da compreensão desta nova etapa. E aí entra um relaxado Nanni Moretti, sempre com uma resposta pronta, que tenta de tudo para entender a posição do seu paciente. Não consegue, desiste e confia-o prontamente à sua ex-mulher, segundo o próprio, a melhor psicopatologista do país depois de si. Decide então entreter-se com o resto da malta (leia-se Cardeais), que por força da indecisão do seu antigo colega, se viram obrigados a continuar em clausura.


Enquanto no Vaticano se joga às cartas, se fazem apostas ou se disputam mini-campeonatos mundiais de voleibol, o secretário pessoal do novo Papa tenta de tudo para tranquilizar o seu novo patrão, levando-o a passear, tentando que este respire novos ares, compreenda e se habitue à sua nova realidade. E é nestas saída, altamente sigilosas, que Michel Piccoli se escapa da sua rigorosíssima segurança e calcorreia Roma, conhecendo novas pessoas, novas realidades, novos ambientes. E é isso que lhe traz, devagar, um sorriso ao rosto e o alivia da tensão demolidora que o acorrentava desde o dia do conclave. Habemus Papam (que tem tudo para ser mal recebido pelos fanáticos) é uma história pertinente. É um abanão nos pilares do Vaticano e um filme corajoso. Nanni Moretti arriscou e arriscou bem. E é por isso que é diferente do que existe em Itália, e do que existe na Europa.


Nota Final:
B+



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Nanni Moretti
Argumento: Federica Pontremoli, Francesco Piccolo e Nanni Moretti.
Ano: 2011
Duração: 102 minutos

sábado, 10 de dezembro de 2011

BRITISH TV - AN IDIOT ABROAD


"He's like a real life Homer Simpson."

Karl Pilkington, em tempos o produtor da rádio XFM London, é a estrela da Edição de Dezembro do BRITISH TV. O seu carisma peculiar, a sua forma de ser (paradoxalmente) interessante, cativaram a atenção de Ricky Gervais (criador de "The Office", entre outros), que viu em Karl um diamante em bruto, com um grande potencial.


Com uma perspicácia que o distingue dos demais, Ricky idealizou uma série interessante, criativa, original e distinta: An Idiot Abroad é aquilo que faltava à televisão. Um individuo humilde e ingénuo, a ser manipulado de forma monstruosa e cobarde, por dois seres absolutamente maléficos - Ricky Gervais e Stephen Merchant. E é óbvio que só poderia resultar em grande!


Na primeira temporada da série, Karl é convidado a visitar as novas maravilhas do planeta e, em cada episódio (que corresponde a uma nova viagem), a produção consegue retirar o máximo rendimento do seu humor non-sense, que a mim me deixou de lágrima no olho de tanto me rir. A espontaneidade de Rick, um homem simples, comum, despretensioso, transformaram-no num ídolo. E fizeram de An Idiot Abroad numa das séries do momento do Reino Unido!

domingo, 4 de dezembro de 2011

E os Links o Vento Levou


Na senda de outros blogues e sítios, penso que vou começar a fazer uma recolha de notícias, artigos e especiais que ocorrem durante a semana e que, não tendo eu tempo para fazer um realce apropriado, vou cá juntar nesta rubrica semanal de links. Agradecia que me dessem as vossas próprias sugestões, que juntarei aqui se considerar apropriado.

  • "Mistérios de Lisboa" consegue três nomeações nos Golden Satellite Awards, para Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direcção Artística e Melhor Filme Estrangeiro. Mesmo que se tenha que relembrar que os Satellites nomeiam quase toda a gente, é uma honra que tenham escolhido o filme português para nomeado. Outra nota de valor: Raul Ruiz ganha postumamente um prémio especial dos Críticos de Cinema de Nova Iorque (NYFCC). [SIC Notícias]
  • Uma lista com alguma idade já mas que vale sempre a pena realcar. No Narrador Subjectivo, podem encontrar a lista dos dez filmes preferidos do Roger Ebert, um dos maiores (quiçá o maior) crítico de cinema da actualidade. [Narrador Subjectivo]
  • Esta semana foram finalmente divulgados mais detalhes sobre a promissora banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross para "The Girl With the Dragon Tattoo" de David Fincher, incluindo a sua curiosa colaboração com Karen O na cover de "Immigrant Song" dos Led Zeppelin. Além do trailer aumentado (8 minutos!), podem aceder a uma 'amostra' de 35 minutos de várias músicas da banda sonora, que ao todo tem três horas. Abaixo vos deixo o meu trecho favorito. [The Film Stage]
 
  • Colin Firth recebeu o seu enésimo prémio por "The King's Speech" nos European Film Awards 2011, que consagrou "Melancholia" como Melhor Filme de 2011, sucedendo a "The Ghost Writer" mas que decidiu cometer a blasfémia de nomear Suzanne Bier o Melhor Realizador de 2011. Não é que a dinamarquesa seja boa - que é - mas na categoria estavam nomes como Kaurismaki, von Trier e Tarr, todos realizadores bem mais arrojados e merecedores de premiação. Tilda Swinton ("We Need to Talk About Kevin") venceu Melhor Actriz, os irmãos Dardenne ("Le Gamin au Vélo") Melhor Argumento e Ludovic Bource ("The Artist") para Melhor Banda Sonora. O que me choca, no fundo, é que alguém tenha achado que Tariq Anwar fez um bom trabalho na edição de "The King's Speech". Que horror. O que compensa: "Chico e Rita" ser Melhor Filme Animado. Muito bem. [Indiewire]
  • No The Parade, confira a lista dos 100 filmes que George Clooney considera seus favoritos. Penso que não ficarão surpreendidos pelo seu excelente gosto cinematográfico. O seu favorito de todos é "All The President's Men". [The Parade]
  • Dois excelentes artigos sobre Meryl Streep, que está na corrida pela sua 17ª nomeação aos Óscares. Um de Nathaniel Rogers, do The Film Experience, que aborda os papéis pelos quais Meryl Streep não foi nomeada aos Óscares; [The Film Experience]
  • E outro de Glenn Dunks, do Stale Popcorn, no rescaldo da vitória da actriz para o Círculo de Críticos de Nova Iorque (NYFCC), que pede a Meryl Streep que opte por ousar mais nas suas escolhas e prefira trabalhar com realizadores mais adequados ao seu enorme talento. [Stale Popcorn]
  • Ainda acerca de Meryl Streep, aqui ficam dois jogos online relacionados com a actriz. Conseguem resolvê-los? O primeiro sobre as nomeações da actriz aos Óscares (aqui) e o segundo (aqui) sobre as actrizes que a bateram. [Sporcle]
  • Já no TVDependente, é altura das "machadadas de Natal". Boas sugestões da equipa do TVDependente em relação a quais séries valem a pena ver e de quais séries mais valia abdicarem. Não concordo com todas e com a disposição de algumas nas categorias, mas na maioria eles têm razão. Depois de mais um ano a ver mais de quarenta séries, além de mais de cem filmes, decidi que metade tinha de ser 'cortada' da minha vida. Mas quando falarmos dos prémios em televisão abordo esse tema. Posso dizer-vos, de qualquer forma, que a série que mais anda na corda bamba para ser 'machadada' cá para estas bandas é "Dexter". A milhas do que já deu. [TV Dependente]
  • Falou-se muito das trocas de apresentador e de produtor para a cerimónia dos Óscares (saiu Brett Ratner e Eddie Murphy, entrou Billy Crystal e Brian Grazer), tem-se falado imenso da regra dos 5 a 10 nomeados para Melhor Filme, mas sobre o que ninguém tem reflectido é sobre a mudança ao anúncio das nomeações: este ano, os filmes nomeados não são anunciados alfabeticamente como é apanágio, com o objectivo de nos apanhar de surpresa. A Sasha Stone abordou o assunto há algum tempo. [Awards Daily]
  • Também via Awards Daily, recomendo que leiam as mesas-redondas dos Óscares. O parente rico do "10 for the Oscars, Oscars for 10", ao que parece. Mesas redondas estão na moda. [Awards Daily]
  • Com algumas semanas de existência nas redes sociais e na Internet mas ainda a tempo de cá vir figurar no blogue: 13 modas de posters que estão para ficar. Algumas merecem crítica; outras nem por isso.  [Oh No They Didn't!]
  • Outra história já com alguns meses: o documentário do making-of dos momentos finais de filmagem da saga Harry Potter. "When Harry Left Hogwarts". Vou querer ver, claro. [Close Up]
  • Finalmente, como é hábito no The Hollywood Reporter, voltamos a ter as entrevistas com actores, actrizes, realizadores e argumentistas. A de actores conta com Clooney, Nolte, Oldman, Plummer, Brooks e Waltz. Um excelente grupo de actores, que discute temas desde a morte, o desemprego e a fama. A de actrizes é composta por Williams, Theron, Spencer, Davis, Mulligan e Close e é de longe a mais interessante, colorida e divertida. Charlize Theron, em particular, está a começar a assumir lugar preponderante no meu coração. Genial. O grupo de realizadores é formado por Jason Reitman, Bennett Miller, Michel Hazanavicius, Alexander Payne, Steve McQueen e Mike Mills. O de argumentistas ainda não tem vídeo completo. Quando tiver, cá o colocarei. [The Hollywood Reporter]





    Frases Inesquecíveis do Cinema







    "Martini. Shaken, not stirred."

    Uma das frases mais famosas de sempre, imagem de marca de James Bond.
     

    sábado, 3 de dezembro de 2011

    O Cinema Numa Cena


    Parabéns pelo 51º aniversário, belíssima Daryl Hannah! Que mais gente encontre em ti o talento que Tarantino sabia teres escondido.



    E não é por nada mas esta Elle Driver é, para mim, das interpretações secundárias mais impressionantes da década. E onde estava a Academia? Pois, a premiar isto.

    sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

    MELANCHOLIA (2011)



    Há crónicas que preferia não ter que escrever. A responsabilidade de comentar um filme de Lars Von Trier é demasiado pesada. Porque a ambiguidade dos seus projectos, os sentimentos contraditórios e distintos que cada um consegue sentir ao ver os seus filmes (uns veneram, outros repugnam), transformaram-no no mais controverso realizador do momento (as suas declarações ajudaram à festa) e podem muito bem fazer desta crítica um completo tiro ao lado, tanto sobre a qualidade do filme, como sobre a opinião geral do mesmo. Mas vamos a isso.


    Melancholia é o Apocalipse contado de uma forma inteligente e, digamos, nobre. Depois de tantos fracassos a recriar o final do mundo (com Roland Emmerich a liderar o pelotão dos falhados), finalmente alguém arregaçou as mangas e tratou de descobrir a direcção certa. Melancholia uma história contada por um tipo desgraçadamente inteligente. E esta é mais uma obra a juntar a um currículo vasto e riquíssimo. Este será bem capaz de ser o filme de Lars Von Trier que mais vezes vou ter prazer em repetir. A melancolia das cenas, a melancolia das personagens, a melancolia da história constroem um atmosfera pesada, um ambiente tenso e um poder quase sobrenatural sobre todo o filme.


    Tudo se desenrola, paradoxalmente à fatalidade da história, de uma forma tranquila, demorada. Cada momento é saboreado, tanto pelas personagens, como pelo espectador. Começamos com uma cena inicial "à Lars Von Trier", com imagens fantásticas, um ambiente sonoro (que em cinema resulta de uma forma estupenda) intenso e que culmina com o início da história de Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg), naquele que deveria ser o dia mais feliz da vida da irmã mais nova de Claire. Justine casa com Michael, o homem que a ama incondicionalmente, numa festa cheia de pompa e glamour na elegante propriedade de John (Kiefer Sutherland). Com avançar da noite, Justine transforma-se numa noiva infeliz, nostálgica, que procura a solidão do quarto ou a tranquilidade do exterior envolto numa noite estrelada.


    Após um final de noite dramático, com Michael a abandonar a casa de Claire e o casamento com Justine, somos lançados para o interior da vida destas duas irmãs, com uma relação tensa, marcada por um amor incondicional que se esbate em acções irreflectidas de ambas, que as afasta sem nunca as separar. Claire (a grande interpretação deste filme!), convida Justine a repousar junto da sua família, na tranquilidade do seu lar, de forma a recuperar dos incidentes de um conturbado copo de água, à medida que se preparam, em conjunto, para a passagem do Planeta Melancholia, que segundo as garantias de John, apenas fará uma trajectória limite, sem afectar o Planeta Terra e os seus habitantes. E é quando toda esta ideia apocalítica, de desgraça e de FIM se começa a apoderar de Claire, que todo o filme entra numa espiral de momentos e acontecimentos que o fazem crescer, crescer lenta e vagarosamente, para o seu final, épico, fantástico e portentoso.


    Um final coerente com a qualidade de Melancholia, um dos melhores filmes de 2011, um dos grandes filmes da carreira de Lars Von Trier, com a emoção e o poder que este consegue impingir nos seus melhores filmes, com a sua marca pessoal, com o seu dedo de criador a sentir-se em cada cena, em cada imagem, em cada sequência. Por fim, uma nota pessoal, para reafirmar que adorei a forma como Melancholia foi filmado. O movimento da câmara nas cenas mais atribuladas, nas cenas mais vividas, transformam o ecrã nos nossos olhos e o movimento faz-nos sentir dentro das divisões da casa ou da tranquilidade das fantásticas paisagem que Lars Von Trier nos mostra.


    Nota Final:
    A-


    Trailer:




    Informação Adicional:
    Realização: Lars von Trier
    Argumento: Lars von Trier
    Ano: 2011
    Duração: 136 minutos

    quarta-feira, 30 de novembro de 2011

    A Morte da 7ª Arte (Versão Nolan)

    "O Dial P For Popcorn tem o prazer de vos apresentar o nosso mais recente colaborador! Axel Ferreira, nosso colega e amigo, aceitou o convite para a elaboração de uma crónica quinzenal. Com uma visão peculiar e distinta da realidade cinematográfica, A Morte da 7.ª Arte deixa apenas uma promessa: Ninguém a poderá evitar."


    O Som e a Fúria


    Debaixo dos meus dedos acumulo as palavras dos longos segredos de um mundo que os grita e ninguém ouve. Seria de esperar algo mais que o martírio continuo de ver o brilho de uma parede ser tanto ou mais interessante do que ver algo com luz e imagem mas sem forma ou eco. Não ver seria ainda melhor. Se um dia alguém se inspirou na expectativa de fazer alguma coisa, não disse nem mais uma palavra, e apenas fez, foi considerado lunático e de certeza arrogante. Quando chegamos à conclusão que nada é valorizável para além da morte, pensamos que nada interessa. Se nada interessa não se vive. Mas, qual montanha que vem atrás de um velho lunático que andou às voltas num deserto e que falava com árvores em chamas, aparece a felicidade e pensamos fazer de nós um riso alegre. A vontade deixou de existir, o estímulo é constante, o tempo para pensar é nenhum, a definição já está dada, não fosse sempre o normal a maioria. Se fosse feliz como um macaco não me aperceberia que ser um homem que pensa que ser feliz como um macaco é bom é tão espectacular como o próprio macaco. Ao pé disto, o facto de a única tipa que aparece no filme do Tintim ser uma representação um pouco abjecta de uma cantora de ópera que só serve para partir cristal nem sequer interessa.

    Para que falar mais se o discurso já se esgotou? Para criar um novo, dizer algo mais. Faulkner já disse algo parecido ao seguinte, fomos criados num mundo de adultos demasiado velhos para perceberem que são lunáticos. Se querem construir algo por cima disto não venham a pensar que o que existe neste momento é normal ou que sequer faz algum sentido. Não faz sentido eu não conseguir ir ao cinema porque não há lá um único filme que não tenha sido pago a peso de ouro para defecar diamantes. Não faz sentido o Faulkner ficar sentado na prateleira e o Paulo Coelho e outros inomináveis venderem como as camisolas da lacoste dos ciganos em dia de feira. Faria mais sentido que os próprios ciganos os vendessem como sendo uma óbvia imitação rasca de má qualidade, em vez de serem mais baratos tinham o dom de ser culturalmente inócuos e legíveis sem existirem dificuldades de interpretação ou aparecimento de dores de cabeça do viajante literário. Continua sem fazer sentido que as pessoas menos talentosas e que menos sabem de música sejam as que mais vendem, sem nunca terem composto um único compasso. Na feira também vendem screeners das próximas estreias esperadas, e pouco será dizer que se um filme estiver a ser vendido ao monte, a dois euros a peça ao lado das meias (ligeiramente mais caras), não haverá maneira nenhuma de poder ser bom. Explicar mais que isto era inútil. Mas o exercício verdadeiro vem a seguir, pensem no melhor filme que já viram a ser vendido por este método. Agora comparem este a todos os outros aos quais se pode equiparar ou que até consigam comparar sem parecer um insulto completo. Peguem nisto tudo e vão conseguir uma óptima lista de toda a inutilidade e lixo, concentremo-nos agora no que está acima disso.

    Desde o início, os primórdios do cinema, havia uma obsessão constante de tornar o que se via realidade. Por isso nasceu o filme falado, o cinema a cores, os efeitos especiais, o que chama CG ou seja lá o que for. Agora há um movimento inverso, a percepção de que a realidade cinematográfica também é um factor limitante. Não estou a falar sobre a ficção científica ou desse tipo de não realidade, mas na ideia de sermos convencidos que aquele cenário é uma realidade para os personagens (ao contrário de uma obra de teatro, em que o cenário não é credível nem o pretende ser). Isso é algo que levou o cinema para o pior caminho possível, e será esta, sem sombra de dúvida, a raiz de todos os problemas. Dizermos que o cinema nos tem que levar para outro mundo completamente credível. Forma-se aqui a exigência fundamental deste tipo de projecto, é preciso uma enorme montanha de dinheiro para fazer com que tal seja possível. O raciocínio seguinte é muito simples, como não há poços sem fundo, o que pagamos para o fazer tem que ser retribuído de alguma maneira. A ambição constante de querer mais e melhor cinema, de querer fazer imagem e som como se faz a imagem e o som quando vemos e ouvimos levou a que se conseguisse o completo contrário, o comprometimento da ideia, para fazer algo que fosse mais agradável e que cativasse o maior número de pessoas, para poderem pagar tal coisa. Quando se abdica do essencial para agradar ao mundo, perde-se a identidade, perde-se a ideia, perde-se por completo a relevância. Porque nada feito para agradar poderá ser bom, pela simples razão de que a única maneira de fazer algo que agrade a toda a gente é fazer algo tão inócuo que não contrarie ninguém, algo tão pouco surpreendente que não possa chocar ninguém, algo tão simples que não confunda ninguém (porque ainda há os que fingem que confundem), algo tão animado que não adormeça ninguém, ou seja, algo tão igual ao que as pessoas estão habituadas que nem vale a pena existir. A existência de uma identidade sem uma ideia basal que seja nova pode ser avaliada como o que agora os críticos gostam muito de dizer “é um grande filme dentro do seu género”. Primeiro, a ideia de que um filme pode ser bom, mesmo que seja uma repetição quase integral daquilo que já foi feito, é uma ideia estranhíssima para mim. Ainda mais que isso, a incapacidade de o filme ter algo de novo e a incapacidade de o crítico o dizer são ambos crimes contra a cultura, um por desperdiçar dinheiro, outro por recomendar um desperdício de vida. Seguidamente e em segundo lugar, foi esta ideia de que a repetição de uma fórmula de sucesso consegue ser muito rentável que levou o cinema à desgraça de se fazerem filmes com o único objectivo de serem vendidos, sem importar a arte ou a originalidade que supostamente a rentabilidade ia sustentando. A demolição da última barreira surgiu agora, depois de já ter aparecido o bendito Spielberg e o remake constante chamado Blockbuster, depois de já terem feito tudo o que era possível com o mesmo diálogo, as mesmas piadas e os mesmos clichés mil vezes, apareceu um homem que até começou com um filme razoável, mas que agora se tornou o salva-vidas de toda a gente que gosta de filmes que fazem muito dinheiro mas acha que até tem um gosto cinematográfico requintado e gosta de intelectualizar a ideia do bom cinema. Este homem é Nolan, e resume-se numa frase: “é muito bom naquilo que faz, mas o que ele faz são filmes completamente banais”. E carregando já o crucifixo às costas, a verdade é que por muito prazer que vos dê ver filmes deste homem, ele não tem o dom de ser relevante, não faz coisas que sejam novas ou que já não tenham sido feitas mil vezes melhor antes. Seja um Thriller ou uma história sobre super heróis, a maior parte do que está lá são sequências de acção mil vezes repetidas, argumentos e diálogos canonicamente guiados, e alguma pseudo-actividade ligeiramente intelectual, que nalguns momentos parece transparecer, mas até o Matrix enganou melhor com essa léria toda da pseudo-filosofia humana (não me interessa se o rapaz é travesti ou não, só por transcender a sua existência de homem não se transforma em metafísica). O meu único pedido é que se sabem o que é bom façam ganhar dinheiro a quem faça coisas boas. Se um homem faz coisas más deixa de as fazer a partir do momento que deixa de ganhar dinheiro por elas. Se um homem ganhar o prémio Nobel comprem um livro dele e leiam, se virem um bom filme comprem o DVD, deixem o hedonismo da idiotice para depois de morrerem.


    Axel Ferreira

    domingo, 27 de novembro de 2011

    Personagens do Cinema - Travis Bickle


    "Thank God for the rain to wash the trash off the sidewalk."

    A isto chama-se jogar pelo seguro. Este mês tive algumas dificuldades em encontrar uma Personagem do Cinema, confesso. Por falta de tempo e de paciência, adiei a crónica até aos últimos dias. Mas finalmente consegui encontrar uma personagem incontestável. Travis Bickle é uma das personagens mais replicadas da história do cinema. A sua inesquecível cena com a sua pistola, em frente do espelho será, penso eu, um dos treinos de representação mais clássicos nos workshops de representação (e se não é, devia ser).


    Taxi Driver foi o filme que catapultou para a fama, em 1976, Martin Scorsese, Robert De Niro e (uma então inocente) Jodie Foster. Pleno de irreverência, com um argumento duro, trabalhado no risco, sem problemas em tocar nas feridas de uma sociedade em transformação pela chegada de um Novo Mundo, marcado pela modernidade, pela emancipação das mulheres, pela deterioração do papel do homem na sociedade, fragilizado pela Guerra do Vietname, que deixa escapar de forma natural o seu estatuto na família e o seu poder sobre o sexo feminino.


    É nesta sociedade em remodelação, em crescimento, em descoberta, que Travis Bickle é lançado, depois de uma traumatizante experiência no Vietname. Arrisca um emprego como taxista e cedo percebe que a noite é um ambiente hostil. É na sequência destes acontecimentos, da necessidade de se proteger (para sobreviver), que aparece a épica cena em que Travis enfrenta a sua imagem no espelho e treina a sua pose para intimidar os criminosos. É uma personagem dúbia, uma personagem intrigante, que se vai revelando ao espectador, como se o mesmo estivesse junto de De Niro e ganhasse a oportunidade de o conhecer melhor. É a grande obra-prima de Scorcese e o início de uma carreira de sonho. Com um Robert De Niro de nível olímpico. Travis Bickle é uma meritória Personagem do Cinema.

    sábado, 26 de novembro de 2011

    TEMPORADA 2011/2012 - Dezembro


    Depois da primeira crónica ter sido um verdadeiro sucesso (gerou não só uma boa recepção por parte de alguns, como valentes críticas por parte de outros), achei que devia continuar as minhas modestas previsões (se assim se podem chamar) daquilo que serão as próximas semanas nos cinemas portugueses. A minha selecção será unicamente sobre o mês de Dezembro, já que em altura de Óscares, a oferta é tão grande e tão vasta, que de pouco adiantaria fazer uma crónica gigante que rapidamente desmotivaria o interesse do leitor.




    Começamos então pela próxima semana. Na próxima Quinta-feira, dia 1 de Dezembro, o leitor pode encontrar em estreia nas salas de cinema, Melancholia, a controversa obra apocalíptica do igualmente controverso Lars Von Trier, um realizador que cultiva amores e ódios por onde passa e cuja polémica atingiu o seu auge na última edição do Festival de Cannes (onde apresentou ao Mundo Cinematográfico este filme) e de onde foi expulso com o rótulo de Persona Non Grata. O trailer do filme deixa-nos a clara ideia de estarmos perante mais um filme à Lars Von Trier, que certamente deixará satisfeitos os seus mais acérrimos fans. Para quem não gosta ou desconheça (e esteja sem paciência para o descobrir) Lars von Trier, talvez Buried, Puss in Boots ou The Debt, sejam boas opções para a próxima semana!




    Para a semana de dia 8 de Dezembro, fica reservada uma das grandes estreia do ano em Portugal! Drive, o filme que surpreendeu na edição deste ano do Festival de Cannes com a vitória de Nicolas Winding Refn na categoria de Melhor Realizador e a presença privilegiada numa lista de grandes nomes para a corrida à famosa Palme d'Or, que foi um dos sucessos do ano nos Estados Unido e que terá garantidamente uma gigante interpretação de um dos actores do momento: Ryan Gosling, é uma visita obrigatória às salas de cinema durante o próximo mês! O trailer deixa-nos com água na boca, a banda-sonora (que já tive oportunidade de ouvir) agita-nos e abre ainda mais o apetite daqueles que será, seguramente, um dos melhores filmes de 2011. Para descobrir, dia 8!




    Dia 15 de Dezembro o leitor poderá optar por dois filmes distintos. Missão Impossivel: Operação Fantasma marca o regresso de Tom Cruise à pele de Ethan Hunt que, penso poder afirmá-lo, já conseguiu imortalizar na memória dos mais novos, que cresceram com as suas aventuras. É inevitável a minha ida aos cinemas para o ver, embora admita que, para essa semana, esteja marcada para Portugal uma das estreias que mais espero para este ano: Jodaeiye Nader az Simin, com a tradução portuguesa de Uma Separação, é um filme iraniano que causou grande sucesso lá fora, sobre o qual pouco ou nada se ouviu falar em Portugal, mas que eu acredito, seja uma das melhores escolhas cinematográficas da Época Natalícia!




    Para véspera de Natal, a 22 de Dezembro, estreará em Portugal Tinker Tailor Soldier Spy, que marcará o regresso aos cinemas de Tomas Alfredson, o realizador que explodiu em 2008 com Låt den rätte komma in. Numa história envolvida em crime e mistério, com um elenco de luxo (Gary Oldman, Colin Firth, John Hurt, Benedict Cumberbatch), Tomas Alfredson tem a oportunidade de provar que o mega sucesso de 2008 não foi um caso pontual e que o enorme culto gerado à sua volta, com a criação de fervorosos grupos de fãs do seu trabalho, não caiu do céu, não foi um mero acaso e que é, actualmente, um dos grandes (senão o maior) nomes do cinema europeu!



    Carnage, a mais recente película de Roman Polanski, estreia nos cinemas portugueses no último fim-de-semana do ano. Um final de ano em grande, com um filme repleto de estrelas (Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reilly), que será certamente um dos sucessos de 2011, e que nos conta a história de uma reunião entre dois casais após o desentendimento entre os respectivos filhos numa briga da escola. Conhecendo o trabalho de Polanski e a sua cada vez mais deliciosa capacidade de nos contar histórias repletas de um humor mordaz e subtil, Carnage vai certamente deliciar quem for até à sala de cinema e fazer justiça ao preço do bilhete que subirá mais de 1€ a partir de 2012.



    Por último, e antes de terminar a crónica, gostaria apenas de esclarecer que não pretendo, com estas crónicas, falar-vos exaustivamente sobre os filmes que selecciono. Isso fica para os profissionais do negócio que têm oportunidade de ver ante-estreias e frequentar festivais nacionais e internacionais. Faço esta selecção porque a qualidade das salas de cinema, em altura de Óscares, se transforma por completo (3/4 do ano são passados a encher chouriços, para depois se gastarem todos os cartuchos de uma só vez), com grandes obras que surgem semana após semana, e que acabam, inevitavelmente, por confundir o espectador mais desatento. As Temporadas do Dial P for Popcorn são, tanto para mim como (espero) para o leitor, um prático manual, que se limita a esquematizar e seleccionar o que de melhor e realmente valioso vai passar pelas salas de cinema nos próximos tempos. Porque em alturas de crise (e, no futuro, de subida escandalosa do preço dos bilhetes de cinema), vale a pena saber aquilo em que se vai gastar (e investir) dinheiro. E se o leitor optar por algum destes filmes, certamente não sairá defraudado da sala de cinema.

    quinta-feira, 24 de novembro de 2011

    LA PIEL QUE HABITO (2011)


    "The things the love of a mad man can do"

    Há, para mim, poucos prazeres na vida e no cinema, que se equiparem ao prazer de ver um filme de Almodóvar. Mesmo aqueles de que não gostei (porque a história me pareceu mal preparada e às vezes incoerente), se tornam diferentes dos demais, pela marca pessoal a partir da qual Almodóvar define as suas longas-metragens, e que o tornaram um realizador, para muitos, de culto.


    E La Piel Que Habito é seguramente o seu melhor filme desde os tempos áureos de Hablé con ella e Todo sobre mi madre, com um dos argumentos mais arriscados, delicados e controversos da sua carreira. Os elogios à pelicula são naturais e compreensíveis, e tornam-se ainda mais claros quando temos a oportunidade de ver o filme.



    Robert Ledgard (Antonio Banderas) é um bem sucedido cirurgião plástico, especializado em cirurgias de redesignação sexual, que vive uma vida solitária, soturna e melancólica, ensombrado por um passado doloroso, marcado pela perda da sua esposa e da sua filha. Na sua gigantesca mansão, onde gasta grande parte das suas horas em pesquisas laboratoriais e onde, inclusivamente, se dá ao luxo de poder realizar operações plásticas, Robert controla com especial interesse a evolução de Vera Cruz (Elena Anaya), uma paciente que passa os dias entregue à solidão, à leitura e ao yoga. Sem contacto directo com nenhum dos empregados da casa (de onde se destaca, Marilia (Marisa Paredes), a mordoma com quem apenas fala por intercomunicador e que lhe satisfaz todos os caprichos), Vera é uma personagem misteriosa e o grande quebra-cabeças de todo o filme.


    A história, que nos vai sendo contada de uma forma gradual, com visitas ao passado e regressos ao presente, é como um novelo que se desenrola lentamente e nos permite perceber o porquê da solidão, mágoa e dor que se vive na casa e na vida de Robert. É um filme brilhante, com uma banda sonora envolvente, uma fotografia que se destaca, não pela beleza das fotografias, mas pelo envolvimento natural e coerente com a atmosfera do filme. Tudo em La Piel Que Habito foi pensado, amadurecido, melhorado e aperfeiçoado. É Pedro Almodóvar no seu melhor.

    Nota Final:
    A-


    Trailer:




    Informação Adicional:
    Realização: Pedro Almodóvar
    Argumento: Obra de Thierry Jonquet, adaptada por Pedro Almodóvar
    Ano: 2011
    Duração: 117 minutos

    domingo, 20 de novembro de 2011

    OFFICE SPACE (1999)



    Há certos filmes que conseguem chegar ao espectador pelo seu lado simples, natural e despretensioso. Se fosse fácil, todos o fariam e o cinema seria uma terrível e abominável seca. Há diferentes formas de chegar ao espectador, de mexer com quem vê o filme, mas raramente se pega pelo lado mais simples da questão. Quase sempre se usam metáforas estúpidas e desnecessárias, quase sempre se utilizam efeitos super-especiais para tapar os buracos de qualidade do filme e algumas (raras) vezes se tenta chegar lá pelo caminho mais difícil (igualmente trabalhoso e, quase sempre, igualmente brilhante).


    Office Space foi e é um sucesso porque é simples. E eu achei isso fantástico! Fala de algo tão óbvio e natural como a asfixia do trabalho, das responsabilidades, das exigências sem fim - Um cancro social nos dias de hoje. Fala-nos da vida sem sentido, virada única e exclusivamente para o trabalho (algum dele sem qualquer fim produtivo), onde a rotina se torna desesperante e o colapso se torna eminente. Peter Gibbons (Ron Livingston) é a estrela. Numa crise amorosa com a sua namorada, em completa rotura com o seu patrão e com o cubículo desumano que ocupa na sua empresa, não consegue encontrar a coragem de que precisa para colocar tudo atrás das costas e encontrar um rumo para a sua vida cinzenta e monótona.


    Ao aceitar uma terapia de casais com a sua namorada, Peter é hipnotizado e o mundo de tranquilidade, paz e despreocupação que tanto ambicionava, torna-se real devido à patética e inesperada morte do seu terapeuta, com um súbito ataque cardíaco a meio da sessão. Peter descobre em si um homem novo. Um homem inconsciente perante as consequências dos seus actos. Que pouco se rala com o trabalho, com o estatuto dos diversos superiores que ocupam o seu tempo a ditar tarefas desnecessárias e sem qualquer fim prático.


    Office Space é um filme mesmo bem conseguido. Tem tudo o que é preciso para convencer o espectador, divertir e entreter, transmitindo uma mensagem com algum conteúdo interessante e prático. Foi uma das surpresas de 1999. E continua a sê-lo nos dias de hoje.


    Nota Final:
    B



    Trailer:




    Informação Adicional:
    Realização: Mike Judge
    Argumento: Mike Judge
    Ano: 1999
    Duração: 89 minutos