Dial P for Popcorn: INCEPTION (2010)

terça-feira, 27 de julho de 2010

INCEPTION (2010)



Peço desculpa pelo LONGO comprimento do artigo mas acabei por juntar a Antevisão e a Crítica e deu nisto. Não volta a suceder.


Foi há dez anos (em Outubro de 2000) que um até então desconhecido realizador chamado Christopher Nolan estreou o seu segundo filme, chamado "Memento". Nunca adivinharia ele que esse viria a ser o filme que lhe daria a hipótese de voos mais altos, mas foi. O filme ganhou a admiração dos críticos e do público, conseguiu-lhe a nomeação para Melhor Argumento Original nos Óscares e terá estado muito próximo de ser nomeado para Melhor Filme e Melhor Realizador. Um filme de pequena dimensão, com algumas mas poucas ambições, sobre um homem com perda de memória a curto-prazo, protagonizado por um Guy Pearce em claro declínio de carreira. Foi, ainda, por volta dessa altura que começou a escrever o argumento para este seu novo filme, "Inception".


Entretanto, teve que se entregar a novos projectos, mantendo-se contudo sempre dentro do mesmo género, o thriller. Optou por se dedicar ao remake do filme nórdico de 1997 "Insomnia", conseguindo ultrapassar alguns dos pontos fracos que o seu antecessor possuía e alcançando boas prestações por parte de Al Pacino e Robin Williams. Seguiu-se a recuperação, milagrosa diriam alguns, da franchise de super-heróis mais querida de sempre, com "Batman Begins" em 2005, um filme extraordinário e que veio, em certa medida, complementar a virada no estilo de filmes de super-herói que já tinha começado com Sam Raimi e o seu Spider-Man, novamente pegando num actor mal usado, Christian Bale e conseguindo uma interpretação fenomenal e provando que, com o material e a direcção adequados, os blockbusters podem ter qualidade e agradarem ao público. Entre o primeiro e o segundo Batman ele escolheu "The Prestige" para realizar, um filme sobre a rivalidade entre dois mágicos em que Nolan usa em seu detrimento a ilusão sem nunca nos menosprezar enquanto audiência. Depois eis que chega "The Dark Knight", a sequela ao seu "Batman Begins". Desde a escolha perfeita para vilão (uma que muitos questionaram veementemente - Heath Ledger como The Joker, uma das melhores interpretações de sempre), passando por um argumento impenetrável do seu irmão Jonathan e de David S. Goyer, pela impressionante fotografia de Wally Pfister (que devia ter ganho um Óscar com todo o mérito), pelo belo elenco que ele conseguiu juntar (a troca, mesmo que forçada, de Katie Holmes por Maggie Gylenhaal fez uma diferença colossal e a adição de Aaron Eckhart e Heath Ledger a um elenco que já continha os nomes de Bale, Caine, Oldman e Freeman só trouxe ainda mais qualidade) e chegando até à genial banda sonora de Zimmer e Newton Howard, excluída pela Academia (no que raio estavam a pensar?) mas agraciada com um Grammy, o filme foi um sucesso enorme, com largos elogios tanto da crítica como do público. Conseguiu 8 nomeações para Óscar (venceu 2), mas não conseguiu as que mais merecia (Melhor Argumento Adaptado, Melhor Banda Sonora, Melhor Filme e Melhor Realizador). A terceira parte da saga já está marcada para continuar em 2012.

Eis que chegamos pois a 2010 e a este seu novo filme... "INCEPTION".



Um argumento que levou dez anos a escrever, um filme que inicialmente se pensava ser uma espécie de filme de reserva, para ocupar tempo antes de se voltar a entregar ao "seu" Batman, uma história que foi mantida em sigilo absoluto até ao dia da estreia e mesmo assim um filme que mesmo que se fôssemos contar a alguém o final da história, eles continuariam a não perceber nada. É assim este "Inception". São duas horas e meia do mais alucinante que há, com um enredo multifacetado e repleto de camadas de complexidade, ao qual devemos dedicar a nossa máxima atenção e concentração com pena de perdermos o fio à meada.



Não se pense, contudo, que é um corte com o que ele tinha vindo a fazer. Não. Chris Nolan mantém-se no seu género predilecto, o thriller, só que decide criar um subgénero dentro do seu próprio género - segundo a sua definição, este filme relata, muito simplesmente, um crime, um assalto, que decorre na arquitectura da mente, do sonho. Não podia ter caracterizado melhor. Não é bem ficção científica mas é quase. É talvez o filme dele que mais penetra nesse género. E é também talvez o filme dele mais incompreendido de todos.



Em "Inception", conseguimos vislumbrar partes dos seus filmes anteriores, desde a grandiosidade dedicada às cenas de acção de "The Dark Knight" até o fascínio com a mente e a ilusão de "Memento" e "The Prestige". Além do mais, "Inception" mantém-se dentro das duas premissas principais dos seus antecessores: Nolan adora fazer filmes sobre anti-heróis, homens desesperados, derrotados pela vida e sobre os momentos que os levam ao extremo (aqui, mais uma vez, não é excepção, pois é a morte de Mal, a mulher de Cobb, que o corrói por dentro), sobre o renascimento dos indivíduos (Bruce Wayne vira Batman, Harvey Dent vira Two-Face, Leonard de Memento renasce a cada alguns minutos, os dois protagonistas de Prestige, Alfred e Robert, também se debruçam sobre o renascimento contínuo e o renascimento é o tema principal de "Inception", pois na mente é tudo possível, como uma personagem do filme bem colocou, "It's just... pure creation") e sobre a dualidade dos homens, isto é, as personagens nos seus filmes são sempre reflexos umas das outras (como o Batman e os seus rivais - Two-Face e Rhas Al Ghoul são antíteses de Batman no sentido em que representam o que Bruce Wayne seria se decidisse optar pelo mal em vez do bem; The Joker é também um oposto a Batman na essência em que enquanto o primeiro é maléfico mas não tem qualquer plano ou agenda ou regra, o segundo defende a prevalência do bem mas é pautado por regras e planificações) - aqui em "Inception", o Cobb é atormentado pela sua própria projecção da sua mulher Mal, que funciona como a sua antítese, o seu oposto, o seu rival, digamos.


O enredo do filme envolve assim, uma equipa de ladrões de sonhos, contratados por grandes empresas, que penetram nas mentes das pessoas e roubam as suas ideias. Uma equipa tão invulgar quanto esta necessita de vários membros talentosos e especialistas no que fazem: temos então Cobb (DiCaprio), que é "The Extractor", quem rouba a ideia; Arthur (Gordon-Levitt), bastante bem descrito por Eames como sem imaginação, oco, que é o "The Point Man", responsável pela logística e braço-direito de Cobb; Ariadne (Page), que é "The Architect", o criador do mundo do sonho (será coincidência esta personagem ter o nome de Ariadne, que é a mulher na mitologia grega que ajudou Teseus a fugir do labirinto do Minotauro?); Eames (Hardy), "The Forger", capaz de se transformar no sonho por razões puramente estratégicas; e finalmente Yussuf (Rao), "The Chemist", que é quem produz o sedativo para os pôr a dormir. Além destes nomes, o elenco inclui ainda o Michael Caine, num papel pequeno, de mero conselheiro; Cillian Murphy é Robert Fischer, o alvo ("The Mark") da equipa, numa interpretação bastante interessante; Marion Cotillard, que é Mal, a falecida mulher de Cobb ("The Shade") e que vai surgindo durante a missão como projecção da mente de Cobb, de longe a personagem que mais me chamou a atenção no filme; e Ken Watanabe, que é Saito, o cliente ("The Tourist"). Esta equipa parte para um último trabalho, o trabalho que iria redimir o foragido Cobb e permitir-lhe juntar-se à sua família. Este último trabalho, no entanto, é diferente de todos os outros, pois o que lhes é pedido é a implantação (daí "inception" - mais um título horrivelmente traduzido para português) de uma ideia e não a extracção, que é a sua especialidade.



O filme é incrivelmente complexo a início de perceber (a primeira meia-hora é de alguma confusão) mas felizmente com um pouco de concentração e com a entrada de Ariadne em cena (e com a reunião da equipa) tudo fica mais facilitado, pois Nolan usa-a para nos introduzir ao mundo dele - ela funciona como a voz do público, sendo através do seu treino por Cobb e Arthur e pelo seu diálogo com os restantes membros da equipa que ficamos a perceber como funciona a actividade deles e como é que eles conseguem operar dentro do sonho. Além do mais, o filme é exuberante o suficiente para nos manter fascinados com o que se está a passar, portanto concentração não deverá ser um problema.

É-nos (e a Ariadne) então depois explicado que os sonhos têm vários níveis, com sonhos dentro de sonhos e por aí em diante, cada vez mais complexos (introduzindo aqui uma interessante perspectiva da flexibilidade do tempo, com 5 minutos a durar 1 hora de sonho no nível um, 1 dia de sonho no nível dois e 1 semana no nível três - as cenas com os três níveis de sonho em intersecção são bestiais) e que dentro do mundo dos sonhos existem projecções do subconsciente que funcionam como os anticorpos no sistema imunitário, atacando os invasores se detectados.



O principal ponto forte de "Inception" é fugir ao que poderia ser uma armadilha fácil, focar-se mais na acção do que nas personagens, mas a verdade é que Nolan, qual mestre que é, prefere dar atenção às caracterizações (pouco detalhadas, é verdade) das suas personagens (há que dizer aqui, contudo, que há algumas personagens bem menos trabalhadas que outras) e prefere trazer-nos para o mundo dentro do cérebro delas do que no sonho do alvo da equipa. Assim, percebemos como cada um reage às situações e entendemos porquê. Simpatizamos com o sofrimento de DiCaprio e as constantes perturbações que o assomam. Entre outras coisas. A acção serve meramente para dar lugar às interacções entre as pessoas, que é afinal o propósito deste filme, funcionando como labirinto onde cada uma das personagens se perde nos seus demónios e nas suas qualidades. 


As três interpretações mais fortes do filme, além da de DiCaprio (se bem que já chega de personagens traumatizados pelas mulheres psicologicamente perturbadas, sim?), são a de Marion Cotillard (que eu amo indefinidamente a partir de agora) como Mal, a esposa, capaz de provocar tanta intriga e comoção a partir de duas-três cenas (e mesmo enquanto ela não está no ecrã, é quase omnipresente, sempre como a sombra, como o demónio, como a cruz que Cobb tem de suportar), a de Joseph Gordon-Levitt, que teve a sorte (ou não) de participar na melhor cena de acção do filme, a gravidade zero, e a de Tom Hardy, que vai dando um ar humorístico e irónico no que seria pelo contrário um filme extremamente pesado. Finalmente, há que dizer coisas boas também de Ellen Page, muito diferente do habitual aqui mas com a mesma graça de sempre, e de Cilian Murphy, que consegue ser bastante expressivo em poucos momentos e com pouquíssimo diálogo.


All in all, o filme consegue manter-nos on the edge of our seat durante as duas horas e meia, é de uma beleza e riqueza visual (e auditiva) como poucos há, aguentando sempre o ritmo e a dinâmica da acção muito elevado, contribuindo muito para isso a fortíssima banda sonora de Hans Zimmer (do melhor que ele já fez - será que me cheira a Óscar #2?) e a soberba fotografia de Wally Pfister (Óscar, anyone?) - a sequência final do filme é de uma tremenda qualidade, mexendo imenso comigo a nível emocional, enquanto a acção decorria a um ritmo alucinante.



Gosto particularmente deste pormenor para o qual me chamaram à atenção na banda sonora. De génio, realmente.


Fazer um filme que altere a linearidade do tempo e do espaço e que consiga explorar tão bem a dicotomia fina entre a percepção e a realidade, entre o que é o sonho e o que é verdadeiro, expondo as nossas concepções e noções de realidade e imaginação a paradoxos, brincando com a ilusão da mente humana e a natureza insidiosa das ideias (como muito bem disse Pete Hammond na sua crítica na Variety), não é para todos. Fazer da mente, do sonho, um puzzle metafísico, metafórico, não é para todos. Nolan conseguiu-o. Terminando quase como comecei... "It's just... pure creation". A ideia mais original de sempre? Talvez.


Nota: A-



5 comentários:

Filipe disse...

Não li o texto todo, pois não quero saber pormenores, mas do que li gostei :)
Parabéns pelo blog, gostei do novo visual ;)

DiogoF. disse...

Boa cr´´itica. Gigante, ´´e certo, mas completa.

Destaco:

- N~~ao fazia ideia de que o argumento andava por a´´i h´´a dez anos;

- Excelente an´´alise ``a dualidade das personagens, da espelhagem e dos reflexos de umas nas outras, nos v´´arios filmes do autor;

- De g´´enio, aquilo da m´´usica.

Jorge disse...

Teve o dom e a audácia (:P) de entrar quase de imediato no melhor filme de 2010 que vi, e talvez num top 10 de sempre. É verdade, grande filme..enorme..e claro Nolan assume-se como um dos meus realizadores predilectos.

É assombroso a capacidade de entretenimento que possui este Inception, e depois as qualidades ao nível da fotografia, da banda sonora, da montagem, das interpretações e sobretudo do argumento, sobressaem-se naturalmente. Então o argumento é assaz inteligente, complexo e contemporâneo.

Diria que este é já o meu preferido de Nolan, seguido de Memento, The Dark Knight, The Prestige, Batman Begins e por fim Insomnia, que considero bem inferior a todos os outros. Ainda assim um bom filme, algo particular.

abraço

Roberto Simões disse...

Parabéns pelo texto. Bom filme, sem dúvida. Não é a obra-prima que tantos cantam, é tecnicamente irrepreensível e audaz e a narrativa consiste num exigente e alucinante exercício. Gostei de DiCaprio, adoro todos os outros actores, contudo considero que não são tridimensionais, não tivera, grande espaço para existir. 4*

Roberto Simões
CINEROAD

Jorge Rodrigues disse...

FILIPE:

Obrigado :)


DIOGO:

Obrigado pelos destaques. E sim de facto é gigante.

JORGE:

É um gigante do entretenimento este filme, de facto. E é um blockbuster inteligente, coisa rara hoje em dia. MEMENTO continua a ser o meu preferido, mas percebo que as pessoas gostem também muito deste.


ROBERTO:

É exactamente isso. Hoje já reduziria a minha nota e diminuiria o meu entusiasmo pelo filme, que tem várias falhas óbvias a apontar. Ainda assim, continua a ser um filme de grande qualidade.


Obrigado pelos comentários,

Jorge Rodrigues