Dial P for Popcorn: THE ARTIST (2011)

quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

THE ARTIST (2011)



"Look at what you've become."


Nostalgia. Um sentimento tão familiar e genuíno, igual parte agradável e desconcertante, inerente à realidade humana. Um sentimento que parece ter estado bastante patente ao longo do cinema de 2011, de "Hugo" a "Midnight in Paris", e que parece encontrar o seu expoente máximo em "THE ARTIST". É uma pena que se tenha tentado fazer de "The Artist" a obra-prima que ele não é, que se tenham criado expectativas ridiculamente altas em torno do filme para, no fim, estas saírem defraudadas e se passar a odiar, de forma também exagerada, um filme que mais não quer do que mostrar o quanto está apaixonado e nos quer apaixonar por outra era, por outro tipo de cinema. É um filme enamorado consigo próprio e, nos seus melhores momentos, enamorado com o próprio cinema a que faz homenagem. Infortunadamente, é também um filme incrivelmente previsível e abundante em redundância que o torna, de facto, um mau espécime para servir de porta-estandarte ao ano da celebração do cinema clássico por excelência.  


Filmado integralmente a preto e branco e quase inteiramente mudo, "The Artist" abre inteligentemente com a instrução "Please be silent behind the screen", nos bastidores do cinema onde está a decorrer a exibição inaugural da nova película de George Valentin (Jean Dujardin), "A Russian Affair". Minutos de tensão e suspense seguem o final da projecção, seguidos de alívio e congratulações ao escutar tão estrondoso aplauso. Este tipo de piada subliminar repetir-se-á ao longo de todo o filme, com maior sucesso numas ocasiões que noutras, mas nunca correndo o risco de exagerar.


A história de "The Artist" segue a linha de "A Star is Born" e, em menor grau, de "Sunset Boulevard", com o grande actor da era silenciosa a cair em desgraça com o advento dos filmes falados, ao mesmo tempo que a naïve estreante que outrora ele ajudou no princípio de carreira ascende na hierarquia da fama. Num primeiro encontro epicamente romântico, Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma apaixonada pelo cinema, vê o seu sonho tornar-se realidade ao transformar-se numa sensação da noite para o dia depois de surgir abraçada ao seu ídolo George Valentin numa foto de jornal. Atraente, divertida e cheia de potencial, daí ao estrelato foi um passo e, de um dia para o outro, a sua carreira sobe estratosfericamente, enquanto a de Valentin, que se recusa a acreditar que a forma de arte que lhe era tão querida esteja a desaparecer, declina. A melhor comparação que vi fazer a este filme, na verdade, foi com outro nostálgico filme sobre um homem que se vê subitamente ultrapassado e que passivamente aceita que a sua arte, outrora tão apreciada, seja hoje descartada por uma indústria - e um mundo - em constante evolução: o belíssimo "L'Illusioniste", de Sylvain Chomet. Ambos se servem de um personagem que diz com uma expressão tanto ou mais do que o que diria se pudesse falar. Ambos os filmes acabam por dolorosamente aceitar o destino do seu protagonista. 


Que em "The Artist" este semblante de auto-comiseração resulte tão bem se deve a Jean Dujardin numa cintilante interpretação. Dujardin fornece a Valentin uma dose bem reforçada de magnetismo, magia e carisma mas também de vulnerabilidade e sensibilidade que o tornam impossível de resistir. Bejo, muito criticada pela fraca dimensão da sua personagem e pelo pouco esforço requerido, foi para mim uma revelação: a meu ver, o filme não funcionaria tão bem se Peppy não fosse o vulcão de positivismo e simpatia que é. E é preciso uma actriz incrivelmente convincente nesse papel para em poucos minutos criar empatia suficiente para querermos que esta seja bem sucedida e não a amaldiçoarmos pelo destino de Valentin.


Um cinéfilo inveterado e um mestre da pastiche, Hazanavicius sente-se em casa neste tipo de filmes, como o mostra a sua fascinante direcção, carregada de criatividade, inspiração e audácia. Hazanavicius nunca deixa o seu filme-dentro-de-um-filme alcançar a promessa das cenas iniciais, com o seu incapaz argumento a deixá-lo ficar mal na segunda metade do filme, em que a inovadora e calorosa auto-reflexão crítica a que se propõe é trocada por uns bem conseguidos momentos de sentimentalismo que o filme, entretanto, fez por merecer.


Emotivo e enternecedor, infecciosamente alegre, "The Artist" merece ser celebrado, mais não seja porque, talvez sem o próprio filme se aperceber disso, procura replicar no espectador de hoje, de forma incrivelmente astuta, a reacção que o espectador dos anos 20 deverá ter tido quando, ao fim de tanto tempo sem som, os filmes decidiram finalmente ganhar voz. Um pormenor que hoje em dia pode parecer insignificante, mas que depois de mais de hora e meia privado de som, faz toda a diferença. Se "The Artist" fosse somente um exercício estético redundante de imitação, de simulacro cinematográfico, carregado de clichés e inconsequência, seria ainda assim um maravilhosamente belo e bem executado. Como é, ao som da esplêndida banda sonora de Ludovic Bource, que literalmente tece o pano de fundo do filme (e sem a qual este não subsistia), "The Artist" é uma visão luminosa, entusiasmante e positiva sobre a evolução no cinema, na arte, na vida. Mais deslumbrado que deslumbrante (como bem relembra o Flávio Gonçalves na sua crítica ao filme), concordo, até porque o considero irremediavelmente demasiado elogiado; um enorme e sincero prazer, de qualquer forma.


Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Ano: 2011
Realizador: Michel Hazanavicius
Argumento: Michel Hazanavicius
Elenco: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, Missi Pyle, James Cromwell, John Goodman, Penelope Ann Miller
Banda Sonora: Ludovic Bource
Fotografia: Guillaume Schiffman
Duração: 100 minutos

5 comentários:

DiogoF. disse...

Não me senti desiludido com os clichês, antes vi toda a estrutura como extremamente arquetipal,mas preenchida com momentos, beats e acções, bem inesperados e deliciosos. Partilho principalmente a tua sensação de alegria efervescente. Apesar de discordarmos no grau de glorificação que o filme merece, o texto está extraordinariamente bem escrito e argumentado ;) Abraço.

Jorge Rodrigues disse...

DIOGO: Obrigado pelo comentário, antes de mais.

Pois, eu tenho graves problemas com o filme, mas também tenho grande admiração. Penso que expressei bem o que sinto nos dois casos. Prefiro, contudo, pôr-me do lado positivo da cerca e apreciar o filme por tudo aquilo que tenta fazer, mesmo que não consiga safar-se bem nalgumas coisas.

E depois... O Jean Dujardin é impossível de resistir. Ponto. O homem faz-me rir sempre que vejo uma entrevista dele ou o vejo receber um prémio.

Cumprimentos,

Jorge Rodrigues

Tripas disse...

Não sei se repararam que no fim ele diz "with presure" em vez de "pleasure". Portanto fiquei com a ideia que ele teria um problema de fala ou pronuncia francesa carregada.

Tiveram a mesma sensação?

Jorge Rodrigues disse...

TRIPAS: Penso que já li nalgum lado que George Valentin era francês de nascença, portanto isso explica a pronúncia francesa carregada.

Cumprimentos,

Jorge Rodrigues

Sam disse...

Esta crítica mereceu destaque na rubrica «A "Polémica" do Mês» do Keyzer Soze’s Place, disponível aqui: http://sozekeyser.blogspot.com/2012/02/polemica-do-mes-9.html

Cumps cinéfilos!