Dial P for Popcorn

sábado, 5 de março de 2011

O Rei e as Redes Sociais



Era para ter escrito há mais dias uma simples retrospectiva (se é isso que procuram, recomendo esta, esta e esta - e em particular esta que antecedeu os Óscares; quanto a críticas do espectáculo em si podem optar por aqui ou ali), nada de muito especial, em torno da mais recente cerimónia dos Óscares. Não sei porquê - talvez antecipando algumas reacções à minha crítica do THE KING'S SPEECH, talvez porque já sabia o frenesim que seria nos mídia a quererem comparar esse com THE SOCIAL NETWORK - mas preferi adiar por mais alguns dias o meu veredicto. E curioso é que este artigo que abaixo vos deixo é tudo menos uma retrospectiva (essa deixarei possivelmente para o retorno dessa mesma rubrica dentro de um mês). É um genuíno artigo de opinião. Porque me parece necessário. Porque estou farto de ver THE KING'S SPEECH e THE SOCIAL NETWORK lado a lado, numa luta sem fim. Porque o 2010 cinematográfico tem de ser enterrado e eu tenho de encontrar paz com a decisão da Academia. Porque acho que não falei do quanto eu gosto de THE SOCIAL NETWORK por aqui. Porque acho que metade das críticas que um e outro filme têm recebido são inteiramente injustas.

Vamos aos factos, primeiro que tudo: o que tivemos no passado domingo foi uma verdadeira chapada nos críticos no retorno à tradição. Um novo recorde para os livros da História. THE SOCIAL NETWORK ultrapassou a centena de prémios de críticos e fica para a história como o filme que mais prémios venceu sem conseguir levar também o Óscar. Fica para a história como o primeiro filme que os críticos unanimemente apoiaram (também tenho já a dizer: inexplicavelmente; existiram mais que dois grandes filmes este ano, sim?), a somar aos Globos e ao sempre estranhíssimos NBR, que os dois grandes indicadores do pulso da corrida aos Óscares - DGA e PGA - recusaram - tendência depois confirmada pela vitória óbvia de THE KING'S SPEECH nos SAG e nos BAFTA e nos Óscares.

 
Para este entusiasta dos Óscares, foi um dia triste. Nem precisava eu de ter dito no meu live blog o que achava desse erro - Steven Spielberg expressou-o melhor do que eu, ao desculpabilizar a Academia não só desta como de outras decisões igualmente polémicas: disse ele que mesmo os filmes que não vencessem estariam em boa companhia, nomeadamente a de CITIZEN KANE (que perdeu Melhor Filme para HOW GREEN WAS MY VALLEY), de BROKEBACK MOUNTAIN (que perdeu para CRASH), de NETWORK (que perdeu para ROCKY) e RAGING BULL (que perdeu para ORDINARY PEOPLE) - interessante que esqueceu outros companheiros como SEABISCUIT, THE BLIND SIDE e CHOCOLAT, mas nem vamos pegar nesses sob risco de ficar já enojado.


THE KING'S SPEECH é um filme que as pessoas gostam agora - amam até. É verdade. E por mim tudo bem. Não sou nada contra que as pessoas gostem do filme. Eu também gostei muito, como se vê pela minha crítica. O que temo é que, tal como no caso de SLUMDOG MILLIONAIRE, ou de GLADIATOR, ou de CHARIOTS OF FIRE, de ROCKY, de BRAVEHEART e de DANCES WITH WOLVES e dos supra-mencionados CRASH E ORDINARY PEOPLE, o tempo não lhe vá fazer justiça. Todos estes foram grandes filmes na sua altura, sem dúvida. Mas agora? Largamente esquecidos. Quase espanta alguém se lhe dissermos que todos estes venceram Melhor Filme. E eu lamento mas tenho quase a certeza absoluta que é assim que THE KING'S SPEECH vai ser lembrado.


Como um espaço em branco, como uma questão para a qual ninguém tem resposta, como um apagão colectivo da memória da Academia. É um grande filme agora? É. Será dentro de alguns anos? Não. 




Quanto a THE SOCIAL NETWORK... O tempo ser-lhe-á mais generoso. Será um exemplo perfeito de um filme com todos os elementos em igual nível de qualidade, todos a trabalhar juntos para criar uma extraordinária obra-prima. É o que acontece quando se junta um excelente realizador com excelentes editores, com excelentes compositores, com excelentes técnicos de som, excelente fotógrafo e um excelente argumentista - e arranjam um excelente elenco para interpretar e dar vida a papéis que nada têm a ver com os habituais estereótipos cinematográficos. Aqui temos um anti-herói a alcançar sucesso, um tipo simpático que é atraiçoado sem nada o fazer prever e um oportunista que vê em outros a possibilidade de poder ver a sua história de sucesso repetir-se. Não tenho qualquer dúvida que este será, dos dois, o filme mais lembrado.


Fora deste dueto, penso que teremos indubitavelmente mais filmes de 2010 que serão para sempre lembrados: TOY STORY 3 veio terminar uma época de ouro da Pixar em grande, encerrando a sua grande franchise com nota altíssima e com um filme tão ou mais amado que os seus dois antecessores. TRUE GRIT é mais um filme fabuloso a adicionar à riquíssima filmografia dos irmãos Coen. INCEPTION foi, diga-se, uma aposta bem ganha de Christopher Nolan, que se tornou, quase do dia para a noite, no realizador favorito do mundo. Os seus (poucos) detractores são imediatamente silenciados pelos inúmeros seguidores, devotos e fãs. BLACK SWAN e THE FIGHTER foram os passos que Darren Aronofsky e David O. Russell, respectivamente, precisavam para avançar na sua carreira. Filmes brilhantes, sólidos e interessantes, provaram o talento dos seus intérpretes e ao mesmo tempo do seu realizador mesmo com vários estúdios e distribuidoras a voltarem-lhes as costas. Tenho plena convicção que estes cinco filmes serão mais lembrados dentro de uma década que THE KING'S SPEECH. Plena convicção.




Voltando ao nosso dueto... Há que conhecer que desde que o projecto THE KING'S SPEECH foi anunciado que se sentiu que era inevitável que fosse esse o nosso vencedor de Melhor Filme deste ano (e como se viu também seria o veículo óptimo para Firth vencer o Óscar; só uma nota de rodapé: quantos anos se podem orgulhar de terem quatro interpretações tão boas a vencer? Não muitos...). E quando vimos o resultado final... Restou-nos ao menos contentarmo-nos com o facto de o filme ser muito melhor do que prometia. Não é inovador, não é original, não é nada que o cinema não tenha visto, não contribui por isso em nada para a história do cinema. É um bom filme, bem realizado, bem produzido, bem encenado e bem executado. Pode ser o filme favorito de muitas pessoas e, como disse na minha crítica, entende-se porquê. É uma história honesta e sincera de amor e amizade, de superação das dificuldades e da aceitação de si próprio. 

O engraçado é que a corrida - enquanto foi comandada pelos críticos - fugiu do controlo do Rei e caiu para o lado do plebeu. THE SOCIAL NETWORK foi amealhando prémio atrás de prémio e a tendência dos Oscarologistas, críticos e bloggers de cinema como eu próprio foi de pensar que pelo quarto ano consecutivo teríamos forte presença da opinião crítica nas decisões da Academia. Tristes de nós por pensarmos que temos alguma influência a esse nível. Contudo, as escolhas da Academia nos últimos anos foram realmente algo fora do comum. Algum dia há 20 anos a Academia teria optado por um filme de gangsters sombrio e desprovido de qualquer emoção e pulso, mesmo tendo ele sido realizado por Martin Scorcese (THE DEPARTED)? Por acaso alguém acha mesmo que há 20 anos a Academia teria entregue o prémio a um favorito da audiência, um feel good movie, produzido integralmente no estrangeiro e que havia começado a coleccionar prémios aqui e ali? E ainda por cima dar a SLUMDOG MILLIONAIRE oito (!) Óscares no total? E que tal a escolha de THE HURT LOCKER, um filme de guerra extremamente nada convencional e ainda por cima realizado por uma mulher, produzido com um orçamento reduzidíssimo? E a de NO COUNTRY FOR OLD MEN, um dos filmes mais estranhos da filmografia dos irmãos Coen, que não são também propriamente os melhores amigos da Academia? Num ano em que eles podiam perfeitamente ter caído no confortável e dar o prémio a mais um filme britânico que fez tudo bem (ATONEMENT) ou à surpresa indie do ano (JUNO)? Ou premiar uma obra-prima classicamente americana (THERE WILL BE BLOOD)?  Temos portanto três filmes profundamente depressivos sem final feliz e uma história sem uma mensagem directa e, claro, o "tubarão escondido" que era SLUMDOG MILLIONAIRE (cuja vitória, desde Setembro de 2008, nunca foi posta em causa). A única coisa que todos tinham em comum? Os seus realizadores, no topo da sua forma e a ganhar o tipo de respeito que normalmente augura prémios maiores. E é claro que com tantas boas decisões consecutivas, nós - os críticos - comecemos a sonhar que a Academia tenha mudado de gosto e opinião e tenha passado a escutar mais os críticos. 


É engraçado que no ano em que os críticos finalmente começam a parar de ter que pensar como a Academia para prever os vencedores dos Óscares, a Academia tenha decidido voltar aos hábitos antigos. Tinha de vir este THE KING'S SPEECH para nos provar o contrário. Afinal, a Academia ainda gosta de recorrer ao confortável e familiar de vez em quando. THE KING'S SPEECH é o típico filme britânico com actores consagrados que venceria mais de uma meia dúzia de Óscares seja hoje, seja há dez, vinte, cinquenta ou oitenta anos atrás. É um filme feito para ganhar Óscares e é exactamente isso que fez. Ainda assim, a corrida não lhe foi assim tão simpática como pode parecer. Sim, ganhou quatro Óscares, incluindo Filme, Realizador e Argumento. Todavia, perdeu o dobro. Oito. Entre esses oito perdeu dois que é um descaramento que não tenha vencido - Direcção Artística e Guarda-Roupa. E entre os quatro que ganhou há um que me tira mesmo do sério: Melhor Realizador.

Teremos que voltar a 2005-2006 e ao meu "ano negro" ou a 2002-2003 ou 1998-1999 para encontrar um precedente que se assemelhe a este. Estes foram anos em que aquele que era percebido como o favorito à vitória para Melhor Filme descarrilou e deixou fugir a vitória para outro. Ainda assim, nestes três casos, o realizador conceituado (que como falei acima era o critério major pelo qual se vinham pautando os últimos anos da Academia) acabou por vencer o prémio: Spielberg bateu Madden em 1998, Lee bateu Haggis em 2005 e Polanski bateu Marshall em 2002. Os novatos podiam levar Melhor Filme mas o Melhor Realizador ia para os grandes homens do leme. Então que raio se passou este ano?

O melhor ano para encontrar comparações com este é 2004-2005. Martin Scorcese, que nunca tinha vencido o prémio de Melhor Realizador apesar de ter uma carreira de mais de trinta anos de sucessivos grandes filmes, era mais do que favorito para vencer por THE AVIATOR... Até que Clint Eastwood chegou e ganhou os troféus principais para MILLION DOLLAR BABY, um filme que surgiu do nada e ao nada voltou. Não estou sequer a efectuar uma comparação entre Hooper e Eastwood - são de duas ligas diferentes. O exemplo que quis dar diz respeito a Scorcese/Fincher. Dois realizador largamente considerados favoritos à vitória, que toda a gente achava que venceriam mesmo que o seu filme perdesse. E perderam os dois. Esta derrota de Fincher é inexplicável - não dá sequer para colocar ao mesmo nível o que Fincher fez em THE SOCIAL NETWORK e o que Hooper fez em THE KING'S SPEECH. Qualquer um filmava THE KING'S SPEECH como Hooper o fez - até ele reconhece que é melhor director de actores que realizador. Ninguém - e repito ninguém - filmava THE SOCIAL NETWORK como David Fincher. Incompreensível. Valeu as vitórias mais do que merecidas em Edição, Banda Sonora e Argumento Adaptado para me aliviar a dor que a Academia me causou este ano.




Foi o ano que mais me custou assistir à cerimónia. Foi o ano que mais mágoa me deu o resultado final. E por muito mais que THE SOCIAL NETWORK fosse o meu favorito e o meu filme preferido do ano, eu lhe dedicaria à mesma todos os elogios que aqui lhe deixei. O facto de ele ser o meu favorito só piora mais as coisas. No fim de contas e como Sasha Stone diz, "o truque é não nos importarmos". No final do dia, os Óscares, tal como tudo que envolva escolhas, é uma decisão pessoal. E se para eles THE KING'S SPEECH é o melhor, que seja. Não o é para mim e isso é que conta.




Quanto a 2010... Pese algumas críticas deste ano ainda para publicar, considerem Óscares assunto encerrado cá no blogue, pelo menos por uns tempos. Venha 2011.





sexta-feira, 4 de março de 2011

THE FIGHTER (2010)



"Its not fuckin' ladylike to be shoutin' in the street like this."


The Fighter é tudo aquilo que um filme deve ser: 1 - Intenso, do princípio ao fim. 2 - Interpretações brilhantes (Bale é impressionante). 3 - Um argumento extremamente bem adaptado e trabalho para os actores escolhidos. 4 - Uma banda sonora recheada de grandes músicas, com a garra que um filme sobre pugilismo e uma história de vida sofrida o exigem. 5 - Momentos e cenas que ficarão, para sempre, na memória de quem vê o filme.


The Fighter é óptimo do início ao fim. Assim que a música "How you like me n ow?" dos The Heavy começou a tocar na sala de cinema, enquanto Micky Ward (Mark Wahlberg) e Dicky Eklund (Christian Bale) percorriam as ruas de Lowell (num fantástico show de Bale), eu percebi que estava perante um grande filme. Só podia estar. E, felizmente, não me enganei.


Dicky Eklund
, conhecido como o "Pride of Lowell" pelos seus fantásticos com bates de Boxe na década de 70 é, em 1996, um homem perdido. Viciado em crack, falido e sem emprego, passa os dias a treinar o seu irmão mais novo, Micky Ward, que sonha ter uma carreira de boxe como a do seu irmão. O vício pela droga e a sua desgraça acabam por atrair a atenção da HBO, que decide fazer um documentário sobre os seus problemas. Iludido com a ideia de que o documentário seria a rampa de lançamento para um regresso aos combates, 20 anos depois, Dicky aceita com felicidade e hospitalidade a equipa de reportagem e, naturalmente, exibe e fala sobre todos os seus problemas.


Dicky é o menino bonito de Alice Ward (Melissa Leo), uma mãe absolutamente detestável, oportunista, sem escrúpulos e cuja permanente loira ainda hoje me assombra o pensamento. Sempre condescendente com Dicky, não tem problemas em tomar o seu lado quando, o seu filho mais novo Micky, farto das derrotas e da irresponsabilidade de Dicky, decide prescindir do treino do seu irmão mais velho. A prisão de Dicky (provocada por desacatos com as autoridades) acaba por ser o empurrão final para a mudança.


É nessa mesma altura que outra grande interpretação nos é dada a conhecer: Charlene Fleming (Amy Adams), que trabalha no bar local, é o ponto de viragem não só do filme como também da vida de Micky. É com ela e com a sua força e incentivo, que Micky faz as mudanças necessárias na sua vida. Contra a vontade da sogra e das várias cunhadas (5, talvez...), Charlene aguenta as adversidades e torna Micky não só num grande homem, como também num grande lutador. Os resultados desta troca e da separação do seu irmão, deixo-as para o leitor descobrir quando vir The Fighter. Seria criminoso revelar aqui todo o filme.


No meio de toda esta história, Christian Bale vai nos dando uma lição de cinema. É uma delícia ver a sua interpretação e a forma como se entregou e viveu esta personagem. Se em "The Machinist" Bale deu uma carga dramática e degradante a uma personagem perdida e desenquadrada do mundo, em The Fighter voltou a repetir a dose, mas abrilhantou-a com um humor e uma personalidade que eu nunca mais irei esquecer. Se Dicky Eklund é o melhor papel de sempre de Bale? Sim, podemos afirmá-lo. No entanto, Trevor Reznik será, sem dúvida, aquele que mais me marcou.


Por fim, deixo aqui o meu apelo: Se ainda não viu o The Fighter, corra até ao cinema mais próximo. A banda sonora deste filme merece a presença do leitor no cinema. The Fighter é um dos melhores do ano e o dinheiro que se paga por ele no cinema é um dos grandes investimentos dos últimos tempos. David O. Russell acertou em cheio.


Nota Final:
A-



Trailer:



Informação Adicional:
Realização: David O. Russell
Argumento: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson.
Ano: 2010
Duração: 115 minutos

quinta-feira, 3 de março de 2011

THE KING'S SPEECH (2010)





“If I am King, where is my power? […] They think that when I speak, I speak for them.”

THE KING’S SPEECH acabou por se tornar, sem querer, no filme que mais me custou falar desta temporada de prémios (daí ter adiado esta crítica por tanto tempo; é-me muito difícil abordar este filme sem ser tendenciosamente malicioso). Transformado num vilão tão pouco convencional, um filme que até apreciei bastante – não tanto quanto outros, já francamente mencionados de novo e de novo aqui pelo blogue, como já sabeis – que, por ser tudo aquilo que é, acaba por ser o inevitável vencedor da maior noite do ano, os Óscares e roubar essa distinção ao filme que além de me ter enriquecido mais este ano, mais intelectualmente significativo, mais exemplarmente executado, com maior potencial para ser considerado o “nosso” clássico moderno e que mais requisitos tem para ser um dos clássicos eternos da história do cinema, THE SOCIAL NETWORK. Funciona como THE BLIND SIDE no sentido que defende e parte dos mesmos temas e situações e porque o contributo cinematográfico que dá é quase nulo; é no entanto bem diferente deste porque a produção e o elenco em jogo são de todo um outro nível.

 
E digo que era um vencedor inevitável porquê? Porque THE KING’S SPEECH é aquilo que é – uma película honesta, directa e sincera sobre o valor da amizade e sobre a forma como esta pode surgir das circunstâncias mais imprevisíveis. Sobre o valor do triunfo sobre a adversidade e a desadequação. Sobre o que é estar na mó de baixo e reerguer-se. É um tema que diz respeito a todos nós, que a cada um despertará emoções e sentimentos diferentes, é reconfortante, é familiar, é afável e agradável e depois de o vermos sentimo-nos melhores pessoas. É verdade. É tudo aquilo que a Academia busca para ser um vencedor de Melhor Filme. Uma obra que apele a valores universais, ao poder da Humanidade e à sua capacidade de superação. Se é uma obra-prima? Longe disso. Também não me parece que o tente ser.

 
A cena que mais me diz a mim – de todo o filme – é a cena inicial. THE KING’S SPEECH principia com o discurso do Príncipe Albert – que mais tarde se tornaria Rei George VI (Colin Firth) – na abertura da exposição do Império Britânico no estádio de Wembley. O discurso desastroso é apenas o mais pequeno detalhe em que se repara na cena; os nossos olhos estão mais focados na panóplia de emoções que George demonstra num curto espaço de segundos – a raiva, a tristeza, o medo, a exasperação, o sofrimento, a redenção, uma expressão de completa agonia e miséria – e na expressão facial da sua mulher, aquela que viria a ser Rainha Elizabeth (Helena Bonham-Carter), encobrindo o pior sentimento que uma mulher pode manifestar pelo seu homem, a pena, através de uma falsa simpatia e encorajamento que na realidade escondem a sua revolta por não poder fazer mais por ele senão estar ao seu lado.

 
Elizabeth decide então pôr mãos à obra e procurar os serviços de Lionel Logue (Geoffrey Rush), um australiano que tenta desesperadamente ter o reconhecimento dos britânicos, um homem frustrado pelo seu insucesso como actor, que aplica a sua teatralidade nos exercícios de terapia da fala que realiza com os seus pacientes. O pano de fundo do filme, o que lhe confere textura e ressonância emocional, se quisermos, advêm daqui, da relação entre Logue e George, no início bastante acidentada dada a resistência inicial do Príncipe aos métodos ortodoxos do australiano, que começa a evoluir a partir do momento em que Logue se torna, para George, mais do que o seu médico, o seu confidente, o seu amigo de todas as horas e ambos abandonam as diferenças de hierarquia e poder que existem entre eles.

 
Eu admito que é francamente fácil enquadrar THE KING’S SPEECH como uma história simples mas poderosa de triunfo sobre as adversidades: afinal, é da história de um monarca que teve de ultrapassar um impedimento que o afligia e o inferiorizava para se tornar no líder que a Grã-Bretanha precisava na alvorada da II Guerra Mundial que estamos a falar. O seu discurso final, por tudo isto, seria sempre um agradável propulsor de alegria e êxtase na audiência que assiste ao filme. Que a história se torna muito mais do que isto é de agradecer a David Seidler, que não escrevendo um argumento tão intrinsecamente detalhado como Lisa Cholodenko ou tão imaginativo e complexo como Christopher Nolan ou tão expositivo como Mike Leigh consegue ainda assim pegar no maior desafio da vida deste homem e mostrar-nos que qualquer um de nós, face a algo que nos incomode, tem a obrigação de perceber que está dentro de nós a força para mudar a situação. A equipa de técnicos por detrás do filme está também de parabéns, seja o fotógrafo por optar por planos mais intimistas e profundos do que o que estamos habituados em outros filmes da realeza, seja a direcção artística por se ter divertido com certos cenários, seja o guarda-roupa com pormenores irrepreensivelmente correctos. 

 
E falta falar de Tom Hooper, o realizador que é conhecido por ser, acima de tudo, um mestre de actores. Nota-se aqui. As interpretações de Rush e Firth funcionam como uma só, sendo que me é impossível dissociar o mérito de um e de outro. Firth terá certamente tido o papel mais exigente – numa interpretação meticulosa, controlada, cuidada mas refrescante e sincera, que tem o condão de comunicar e mostrar imenso sem usar palavras – mas não terá sido fácil a Rush diminuir o nível habitual de força e desenfreio que pautam nas suas performances. O elenco secundário (Helena Bonham-Carter, Timothy Spall, Guy Pearce, Eve Best, Claire Bloom e Michael Gambon) também brilha por entre estas duas interpretações, mas são essas duas que essencialmente constroem o filme.

 
THE KING’S SPEECH resume-se, afinal, a isto: a uma relação muito especial entre dois homens, que serve de base a Hooper e a Seidler para nos contar a história de um tempo no passado em que um homem, que viria a tornar-se rei, sofria de uma complicação que o impedia de ser aquilo que dele era esperado. E foi precisa a amizade de outro homem, tão longe em termos nobres dele, para que ele percebesse que ele possuía todas as armas que necessitava para poder ultrapassar tal complicação. É um filme para todos, que agrada a todos, que nos toca e nos comove, que nos faz sentir que o ser humano é extraordinário na forma como encara e supera os desafios que a vida lhe traz.


Nota Final:
B+

Informação Adicional:
Realizador: Tom Hooper
Argumento: David Seidler
Elenco: Geoffrey Rush, Colin Firth, Helena Bonham-Carter, Guy Pearce, Michael Gambom, Claire Bloom, Eve Best, Timothy Spall
Banda Sonora: Alexandre Desplat
Fotografia: Danny Cohen
Ano: 2010

Trailer:

terça-feira, 1 de março de 2011

10 FOR THE OSCARS, OSCARS FOR 10 - Previsão Colectiva (Óscares)



O Dial P For Popcorn tem o orgulho de vos trazer esta nova iniciativa/cooperação interblogues, de seu nome "10 for the Oscars, Oscars for 10", uma série de meetings entre amigos e, por sinal, cinéfilos fidelíssimos, com o intuito de discutir tudo relacionado com Óscares, cerimónias, precursores, méritos e falhanços da temporada cinematográfica de 2010. Esperemos que além de informativo e interactivo isto nos sirva e vos sirva de alguma coisa.


Só para terminar, faltou-nos falar dos vencedores da nossa Previsão Colectiva. Não sei como fizeram os nossos leitores aí em casa, mas espero que nos deixem também a vossa percentagem de acertos.


Entre nós, tivemos um empate a três. Nas oito categorias principais (as únicas para as quais eu tinha previsão do Samuel Andrade), todos - excepto o Gonçalo - conseguimos a mesma pontuação: 7 em 8 correctas (o Pedro também tinha, tal como o Gonçalo, "The Social Network" previsto para Melhor Filme, mas na última hora e via Facebook alterou-a correctamente). 

Excluindo as categorias das curta-metragens, para as quais só eu, o Gonçalo e o Tiago fizemos previsão, ficando portanto com 21 categorias no total, não houve vencedor, houve um empate a três: eu, o Tiago Ramos e o Diogo Figueira conseguimos o mesmo resultado, 15 correctas em 21 categorias. A aposta em "Inception" para Argumento Original saiu mal ao Diogo, a minha aposta em "The King's Speech" para Edição (já nem falo em "Incendies" para Filme Estrangeiro) foi ridícula e a aposta do Tiago em "I See The Light" também não se saiu bem. De qualquer forma, ficámos todos muito perto uns dos outros.

Se contarmos com as curtas-metragens, continuamos a ter um empate, porque eu e o Tiago Ramos acertámos nas previsões para Curta - Documentário e Curta - Live Action, errando ambos a Curta - Animação e portanto conseguindo um 'score' final de 17 em 24 o que, se olharmos aos resultados dos críticos internacionais, bem mais veteranos nisto, é bastante bom.


Das minhas apostas, as que me dão mais orgulho, além das curtas-metragens, é sem dúvida a que fiz em "We Belong Together", que mais nenhum de nós fez, apesar de saber, por exemplo, que é a favorita na categoria para o Pedro Ponte.


Deixo-vos abaixo então com o nosso boletim de voto, por assim dizer e espero que partilhem cá o vosso também. Agradeço, uma vez mais, aos meus convidados por terem sido impecáveis em partilhar do meu interesse por este jogo preditivo. E para o ano há mais.

 (podem clicar para ampliar)



DAFA 2010: Melhor Documentário



Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.


Temos que ver se aceleramos esta entrega de prémios que anda tudo a ficar atrasado. Vá, então, continuando com os nossos prémios, hoje é dia de anunciarmos os nossos nomeados para Melhor Documentário. Como sabem, decidimos deixar a nossa crítica de doze dos quinze documentários que integraram a lista longa da Academia, por isso teceremos grandes considerações na altura. De qualquer forma, nada me impede de divulgar quais são, para mim os seis melhores do ano. Cá estão os nomeados para Melhor Documentário:



 CATFISH
EXIT THROUGH THE GIFT SHOP - #1
INSIDE JOB - #3
JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK
LAST TRAIN HOME
RESTREPO - #2


Tenho a dizer, primeiro que tudo, que me foi dificílimo restringir só a estes seis. Não fazem ideia. Isto porque o ano foi mesmo riquíssimo em documentários de valor, seja portugueses ("Pare, Escute, Olhe" e "Lisboa Domiciliária", com "José e Pilar" fica a merecer uma especial consideração, porque é o que me falta ver - dentro de dias tratarei disso, que ele estará em Coimbra no TAGV dia 15 de Março - fica já o aviso para quem é da zona não faltar - e que sei que talvez merecia um lugar entre estes seis), seja estrangeiros ("GasLand", "Wasteland", "Prodigal Sons", "The Tillman Story", "Waiting for Superman", todos merecedores de uma vista de olhos). Contudo, no fim de contas, eram estes os seis que vos queria urgir a ver.

CATFISH é inexplicável. Não dá para explicar sem dar informações sobre o filme, por isso deixo-vos apenas com isto: vale sem qualquer dúvida o tempo empregue em vê-lo. Um estudo interessante sobre o nosso comportamento no mundo tecnológico de hoje, em que o nosso diálogo muitas vezes se resume apenas ao que escrevemos através de telemóveis e redes sociais. EXIT THROUGH THE GIFT SHOP é, mais do que inventivo e original, divertido. Um passeio pelos trabalhos de inestimável qualidade feitos nas ruas do mundo, vale certamente a pena espreitar (crítica do João aqui). INSIDE JOB é uma belíssima obra-prima que assusta tanto quanto encanta. Charles Ferguson pega em tudo aquilo que nos têm escondido acerca da crise financeira e aponta o dedo aos culpados, apanhando-nos desprevenidos em entrevistas e procurando focar a sua atenção nos pequenos e simbólicos genuínos momentos de reacção extemporânea deles até que de repente voltam a assumir o seu impenetrável, imperturbável eu. Incrível. JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK é capaz de ser o menos convencional dos meus nomeados, mas é possivelmente aquele que mais vos recomendo verem. Mesmo não sendo propriamente fãs da comediante/apresentadora. Joan Rivers é uma personagem indissociável da televisão norte-americana dos últimos cinquenta anos. Além disso, é uma das maiores comediantes femininas que já existiram. Ainda por cima, é daquele tipo de gente famosa que faz de tudo para continuar famosa, como se pode ver no documentário. De tudo mesmo. É fascinante ver o que move, o que está verdadeiramente por detrás de uma das caras que a América melhor conhece. LAST TRAIN HOME e RESTREPO foram dois títulos que assisti de seguida e que me apaixonaram sentidamente. RESTREPO mostra-nos o lado duro da guerra e o poder da camaradagem entre soldados. É lindo ver como uma "família" se forma perante os nossos olhos e como, ao longo do ano, as diferentes pessoas vão alternando de estado de espírito, sendo que aquele que hoje consola amanhã é consolado e vice-versa. Um ano bastante complicado passado longe das suas vidas normais em casa. Isto já sem contarmos com o facto que estavam enfiados numa trincheira sob ataque de Talibãs. LAST TRAIN HOME proporciona-nos uma visão genial sobre o ressurgir da China como grande candidata a maior potência mundial através das suas classes hierárquicas mais baixas, acompanhando os mais de duas centenas de milhões de chineses que todos os dias apanham o seu comboio de casa para o trabalho e do trabalho para casa.


E para vocês: quais foram os documentários que vos encheram as medidas?


10 FOR THE OSCARS, OSCARS FOR 10 - Último Meeting (Parte 2)



O Dial P For Popcorn tem o orgulho de vos trazer esta nova iniciativa/cooperação interblogues, de seu nome "10 for the Oscars, Oscars for 10", uma série de meetings entre amigos e, por sinal, cinéfilos fidelíssimos, com o intuito de discutir tudo relacionado com Óscares, cerimónias, precursores, méritos e falhanços da temporada cinematográfica de 2010. Esperemos que além de informativo e interactivo isto nos sirva e vos sirva de alguma coisa.


Com uns dias de atraso, é verdade, mas como também não era incisiva para a cerimónia em si, decidi só publicar a nossa segunda parte da conversa hoje. Aqui vos deixo com o último segmento desta nossa iniciativa. Espero que deixem ficar também as vossas opiniões.



ALGUMA CATEGORIA NOVA QUE ACRESCENTASSEM?

DIOGO: Melhor Cena.

GONÇALO: Não acrescentava nenhuma nova, mudava era as regras das que já existem.

JOÃO: Categoria do Público, em que por votação no sítio dos Óscares, o público escolheria os nomeados e os vencedores de uma categoria para melhor filme.

JORGE: Acrescentar não acrescentaria nenhuma (talvez Melhor Elenco?), até porque elas já são demasiadas. Mudaria regras, sim, como o Gonçalo sugeriu, para haver mais uniformidade no número e qualidade dos nomeados, para haver igualdade entre os diferentes ramos da Academia.

PEDRO: Talvez Melhor Design ou Efeitos Gráficos, que de certa forma está associado aos efeitos especiais mas que requerem imenso trabalho.

SAMUEL: Julgo que não seria descabida a inclusão de uma categoria que premiasse o elenco de um filme; desta forma, seria possível galardoar títulos onde abunda a química entre os actores e com fantásticas interpretações. Paralelamente gostaria de ver a criação de uma cerimónia promovida pela Academia que premiasse os melhores trabalhos em promoção (poster, trailer, etc.) cinematográfica.

TIAGO: Talvez Melhor Banda Sonora Não Original/Adaptada.



ALGUMA CATEGORIA QUE ACHAM QUE PODIA SER ELIMINADA?


DIOGO: Alterava as regras relativas à “originalidade” da banda-sonora.

GONÇALO: Nenhuma. Acho que o equilíbrio foi alcançado com a categoria de Melhor Filme de Animação. 

JOÃO: Maquilhagem.

JORGE: Tendo em conta o mau uso que se faz da categoria, eu era capaz de sugerir a remoção de Melhor Canção Original – mas note-se: se ela continuar com estas regras ridículas.

PEDRO: Não consigo "dispensar" nenhuma. Todas as que lá estão premeiam trabalho de qualidade, sejam nas técnicas ou nas que menos interesse despertam  (curtas/documentários), enquanto as restantes são a raison d'être da cerimónia.

SAMUEL: Não dispensaria categorias, mas sim certas regras associadas a algumas das existentes (ex.: Banda Sonora).

TIAGO: Todas elas me parecem justas.


SE PUDESSEM ATRIBUIR UM ÓSCAR A ALGUÉM ESTE ANO, QUEM SERIA?


DIOGO: SHUTTER ISLAND.

GONÇALO: É ridículo que o THE GHOST WRITER não esteja presente na lista de nomeados. Foi facilmente um dos filmes do ano, com uma das melhores realizações e um dos melhores argumentos. SHUTTER ISLAND é outro: merecia estar nomeado em, pelo menos, melhor filme, melhor realizador, melhor argumento adaptado e melhor actor principal. E enfim, o Clint Mansell merecia o Óscar de melhor compositor (já merece há alguns anos, diga-se).

JOÃO: Javier Bardem (BIUTIFUL).

JORGE: Ryan Gosling (BLUE VALENTINE), Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg pelo argumento de THE KIDS ARE ALL RIGHT e, sem qualquer dúvida, Robert Richardson pela fotografia de SHUTTER ISLAND.

PEDRO: BLACK SWAN/Ryan Gosling/Matthew Libatique/Trent Reznor [n.d.r. Trent Reznor ganhou mesmo o Óscar].  

SAMUEL: Já é altura de Roger Deakins arrecadar uma estatueta por Melhor Fotografia. E seria um autêntico prazer ouvir, no Kodak Theatre, o anúncio do nome de Trent Reznor pela banda sonora de THE SOCIAL NETWORK… [n.d.r. Trent Reznor ganhou mesmo o Óscar]

TIAGO: [APARTE: Não sei se percebi muito bem esta questão. THE SOCIAL NETWORK merecia um Óscar, Natalie Portman merecia um Óscar, muita gente merecia um Óscar... É dos nomeados ou não nomeados; n.d.r. Era indiferente] De qualquer modo, escolho... I AM LOVE.
                               


ESCOLHAM UM ACTOR, UM FILME E UM ARGUMENTO DO PASSADO QUE NÃO DEVIAM TER PASSADO SER RECEBER UM ÓSCAR.


DIOGO: A CLOCKWORK ORANGE (Melhor Filme), Julianne Moore (Melhor Actriz), MAGNOLIA (Melhor Argumento).

GONÇALO: Duas palavras: CITIZEN KANE. E em relação ao de argumento (foi o único Óscar que o CITIZEN KANE recebeu)... Tanto por onde escolher... Bem, digo o que me vem agora à cabeça: THE SIXTH SENSE.

JOÃO: THERE WILL BE BLOOD, o argumento de MEMENTO e Jack Nicholson no SHINING.

JORGE: Eu aqui nem consigo dizer só um por tema. BROKEBACK MOUNTAIN, L.A. CONFIDENTIAL, RAGING BULL e CITIZEN KANE perderem Melhor Filme, por exemplo. Mike Leigh ter perdido Melhor Argumento sete vezes mas gente como Paul Haggis já ter vencido duas vezes. E lendas do ecrã como Glenn Close, Sigourney Weaver, Julianne Moore, Michelle Pfeiffer, Annette Bening, Deborah Kerr não terem nenhum Óscar e Hilary Swank e Jodie Foster terem dois cada uma. Nem comento.

PEDRO: PULP FICTION; Sidney Poitier (IN THE HEAT OF THE NIGHT); EASY RIDER (Peter Fonda, Dennis Hopper, Terry Southern).

SAMUEL: Filme – CITIZEN KANE, em 1941; Actor – Ralph Fiennes, por SCHINDLER’S LIST, em 1993; Argumento – BEING THERE, em 1979.

TIAGO: THE CURIOUS CASE OF BENJAMIN BUTTON (Argumento). Julianne Moore. THERE WILL BE BLOOD.


QUAL FOI A PRIMEIRA CERIMÓNIA A QUE ASSISTIRAM?


DIOGO: 2003.

GONÇALO: Creio que foi em 2001 [N.B. Cerimónia de 2002], quando o primeiro Senhor dos Anéis foi nomeado... Fiquei tão contente quando vi, anos mais tarde, o terceiro ganhar tudo.

JOÃO: Este ano será a primeira.

JORGE: A primeira que vi mesmo foi em 1997 [N.B. Cerimónia de 1998], mas só lhes comecei a dar mesmo importância desde 1999-2000 (AMERICAN BEAUTY ganhou).

PEDRO: 1998 (vencedor: TITANIC).

SAMUEL: Foi em 1991 [N.B. Cerimónia de 1992], numa cerimónia em que vi O SILÊNCIO DOS INOCENTES sair vencedor e ouvi falar, pela primeira vez, num actor fenomenal chamado Anthony Hopkins.

TIAGO: Não faço ideia…


POR ÚLTIMO, PEÇO QUE ME FAÇAM UM SUCINTO BALANÇO DO ANO CINEMATOGRÁFICO DE 2010.


DIOGO: É positivo, está claro. A meu ver, foi mais interessante do que 2009/2010, com grandes nomes como Scorsese, Coppola, os Coen, Fincher, Kiarostami, Noé, Allen, Iñarritu, Eastwood, entre tantos outros, a trazerem-nos aquilo que melhor sabem fazer, embora alguns não tenham passado sem deixar certa desilusão por trás. Na animação houve três filmes que adorei mesmo (TOY STORY, HOW TO TRAIN YOUR DRAGON, TANGLED) e um do qual gostei (THE ILLUSIONIST), um ratio que já não acontecia há algum tempo. O cinema português não esteve bom, mas teve coisas interessantes e já teve anos piores (falta-me ver o FILME DO DESASSOSSEGO e o JOSÉ E PILAR). Para o ano, não teremos, infelizmente, alguns dos nomes de que falei, mas teremos outros igualmente magníficos, como Almodóvar, Lars von Trier, Malick, etc. Muita pena, e certa angústia, por ainda ter de esperar por mais uma peça do brilhante Paul Thomas Anderson.

GONÇALO: Uma boa dose de excelentes filmes, mas não muitos a que possa chamar de Obra-Prima. Olhando para as nomeações deste ano, por exemplo, vê-se que não há muitos filmes que mereçam essa designação, aliás... Creio que foi uma boa temporada, mas não excelente. Faltaram, talvez, algumas grandes surpresas, alguns grandes novos autores. Os grandes mestres (Scorsese, Polanski, Kiarostami...), e os grandes filmes vieram de onde se esperava (Aronofsky, Fincher...), mas de resto...

JOÃO: Positiva. Pena só ter produzido em quantidade e em qualidade no final o ano. São três meses que compensam nove de profunda pobreza (tirando algumas excepções, claro).

JORGE: O meu balanço pessoal está feito no blogue, mas partilho aqui algumas palavras também. Penso que foi um bom ano, a começar bem a nova década, com grandes nomes do cinema a mostrarem-nos novos projectos de qualidade, mostrando que ainda estão no topo da sua forma, com os nomes emergentes da actualidade a consolidarem a sua reputação como mestres e com novos e promissores aprendizes a surgirem com obras de inegável talento e mérito. De realçar ainda o culminar de uma década espectacular de animação, muito devida à força crescente da Pixar e da Dreamworks no mercado mundial e uma brilhante década também para os documentários, rejuvenescidos desde o par de obras-primas que Michael Moore deitou cá para fora no virar do século. Esperemos que o novo ano nos proporcione grandes e iguais alegrias.

PEDRO: Parece-me que foi uma temporada bastante razoável. Não houve mais que 5 filmes que tenham maravilhado no sentido real da palavra, mas houve imensa qualidade. E é para isso que estes prémios deviam existir, para premiar qualidade. Outra coisa que faz é incitar o debate, dividindo-nos em grupos consoante os nossos favoritos. E nesse aspecto 2010 foi um ano excepcional.     

SAMUEL: Dominado pelo protagonismo (para mim incompreensível) de THE SOCIAL NETWORK, este foi um ano onde, uma vez mais, o cinema independente ou a beirar o mainstream revelou-se original e/ou desafiador. Basta ver os exemplos de BLACK SWAN ou de WINTER’S BONE para se chegar a essa conclusão.

De 2010, não posso deixar de destacar INCEPTION, sem dúvida um dos blockbusters mais inteligentes que Hollywood produziu nos últimos anos e que se encontra merecidamente nomeado para Melhor Filme.

Houve, também, boas revelações no que toca a actrizes: Jennifer Lawrence, Hailee Steinfeld e Chlöe Moretz são valores seguros para o futuro da indústria e com carreiras muito promissoras.

Por fim, de salientar que 2010 ainda não é o ano em que o fenómeno 3D, a mais recente “cartada” de Hollywood para aumentar receitas de bilheteira, ganhou consensos. As experiências (a meu ver) falhadas de ALICE IN WONDERLAND ou TRON: LEGACY comprovam-no, dois títulos que são melhor desfrutados se visualizados no formato dito original.

TIAGO: No geral foi um bom ano, com grandes filmes, boas produções... Desempenhos de elevada qualidade, bastantes filmes muito bons, um regresso a algum classicismo, mas simultaneamente com um grande travo de modernidade.



No fim das contas, só me resta agradecer ao brilhante elenco de convidados que aceitaram de bom grado o meu convite, não só os geniais Gonçalo Trindade, Pedro Ponte, Diogo Figueira, Samuel Andrade e Tiago Ramos, que contribuíram em todos os encontros, mas também ao "nosso" João Neves que acabou de assistir aos seus primeiros Óscares fruto da nossa rubrica e insistência, e ainda ao Fernando Ribeiro, à Ana Alexandre e ao Roberto Simões, que connosco iniciaram o projecto.


Espero contar de novo convosco no próximo ano, talvez até numa fase mais precoce e num projecto com maior e melhor planificação (e até talvez com mais convidados). Isso serão discussões para mais tarde.


Agradeço-vos imenso as saudáveis e agradáveis discussões em que nos envolvemos, as horas de curioso e divertido debate que nos levaram a destilar ódios e a inflamar paixões, sempre no interesse de falar do que tanto nos aproxima: o cinema. Penso que aí o nosso objectivo foi conseguido. Muito obrigado a todos.


- Jorge Rodrigues