Dial P for Popcorn: Cinema Europeu
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema Europeu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cinema Europeu. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de abril de 2013

LOS AMANTES PASAJEROS (2013)


Pedro Almodóvar é um dos meus argumentistas de eleição. Depois da assombrosa história de "La piel que habito", de 2011, o realizador espanhol decidiu voltar ao seu estilo característico, que notabilizou o princípio da sua carreira como criador de comédias simples, de um estilo barato, brejeiro e invulgarmente popular. Ainda hoje  "¿Qué he hecho yo para merecer esto!!", de 1984, e "Mujeres al borde de un ataque de nervios", de 1988, são duas das minhas comédias favoritas. 


Mas em Los Amantes Pasajeros foi, talvez, longe demais. Não é fácil caricaturar rótulos, ainda para mais quando falamos de temas tão controversos como a homossexualidade, o sexo, as dependências e os tabus sociais. Meter tudo isto na classe executiva de um avião com destino à Cidade do México e, no final, construir um filme de sucesso, não era tarefa fácil. A reacção na sala de cinema foi positiva (felizmente o novo filme de Tom Cruise tem permitido algum sossego nas restantes salas de cinema) mas acredito que para alguns espectadores, Almodóvar tenha cometido alguns exageros. Eu próprio, que gostei bastante do filme, ao reflectir um pouco no final, penso que o tema da homossexualidade sai ligeiramente denegrido de um filme que, me parece, tinha como propósito libertar mentes e quebrar complexos, no mais informal Almodóvar dos últimos anos.


Num ambiente relaxado, com as caras mais conhecidas dos seus filmes, o espectador atento e interessado, há muito convencido pelo espanhol e disposto a entrar na brincadeira de Almodóvar, não dará pelo tempo passar. A viagem é rápida, divertida e animada. Tem, pelo meio, um minuto de filme verdadeiramente louco (onde a sala de cinema emudeceu perante o choque e a ousadia das cenas) e termina de forma alegre com um tema muito bem escolhido do mais recente álbum da banda inglesa Metronomy. Uma cartada de mestre, a deixar bem claro que, mesmo a brincar, Almodóvar sabe o que está a fazer.


Nota Final 
B+ 
(8/10)


Trailer


Informação Adicional
Realização: Pedro Almodóvar
Argumento: Pedro Almodóvar
Ano: 2013
Duração: 90 minutos

domingo, 2 de dezembro de 2012

NINHO DE CUCOS (VII)

Novo mês, novo insurgimento social contras as velhas e austeras medidas que a Troika nos teima em oferecer como brinde natalício antecipado. Governo e sindicatos degladiam-se de forma cada vez menos figurada, numa luta entre pessoas cada vez menos interessadas em lutar. Assim se progride em Passos lentos no país pelo qual já ninguém dá Cavaco. Mas não sou eu, universitário sustentado pela família, que ainda me dou ao luxo de sofrer menos pelos sacrifícios financeiros, que pelo impacto psicossocial da crise, que vou juntar o meu latim à horda de bitaites que apesar de alheios à solução para a crise, são omniscientes relativamente ao facto da necessidade da guilhotina ter cabeças para separar do respectivo pescoço.


Não. Em vez disso deixem-me preocupar com as convocatórias da seleção ou com a mensagem de voz nos comboios da CP, enquanto escolho o país para onde vou emigrar. E se bem que as escolhas do mister Paulo Bento não têm volta a dar, já a robótica e feminina voz, que no final das viagens ferroviárias endereça uma agradecimento pela "preferência" dos seus utentes pela única empresa de comboios no nosso país, podia claramente beneficiar de uma completa remodelação. Sei bem que há alternativas ao transporte ferroviário, mas ter de ouvir uma barbaridade destas de uma operadora de transportes com um serviço tão ruinoso e tão pouco fiável como a CP torna-se tão agradável como ouvir a minha professora, que não chega à aula das 14h antes das 15h30, queixar-se da minha pontualidade. É sofrimento imerecido e numa época em que um noticiário é fonte suficiente de sofrimento para toda a semana revela-se cada vez mais premente suprimir estes desnecessários focos de angústia, para a população em geral, e para mim em concreto. Julgo mesmo oportuno revisitar a minha aula do meio-dia, em que um outro professor meu atentava na necessidade da precisão do discurso, citando Jô Soares com a feliz expressão: "Meça suas palavras!"

No nosso Portugal não impressiona que o efeito borboleta de uma má escolha de palavras em São Bento, seja razão suficiente para desencadear um ciclone de Bragança a Sagres. Por outro lado, não deixa de ser curioso o facto de se chutar uma pedra e aparecerem umas 10 pessoas capazes de identificar a mais ampla variedade de defeitos no novo acordo ortográfico, mas se sai uma notícia n'A Bola ou no Record a dizer que fulano vai ser "irradiado" do desporto, é rara a alma que reconhece a violência dos abusos a que a sua língua materna acabou de ser sujeita. Permitam-me portanto ser apologista do pedantismo, já que dele depende, não só a defesa da nossa cultura linguística, como também o bom funcionamento da nossa disfuncionante sociedade.

Mas quem vive também de uma boa escolha de palavras é o cinema. 


Costuma-se dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, mas no fundo ninguém usa imagens para evidenciar a singularidade de uma circunstância. Uma citação, um título, uma discussão são, não raras vezes, exemplos máximos do expoente artístico que um bom filme pode oferecer. Pessoalmente admiro a arte de fazer funcionar um título. Pode não parecer tarefa digna de louvor, mas a congregação de um conjunto de palavras que sirva mais do que o simples propósito de rotular um filme comporta, por vezes, uma qualidade artística que muitas fitas não conseguem sequer aproximar nas suas centenas de minutos de rodagem. Mais do que isso, é difícil nos tempos que correm, encontrar um título que não denuncie metade da história da película, o que não deixa de ser sobejamente irritante, tendo em conta a quantidade de trailers e sinopses que surgem cedo demais e revelam mais do que devem.

A este ponto serve bem ao objectivo do meu argumento tirar "Good Bye Lenin", de Wolfgang Becker, da cartola, obra que representa exemplarmente a escassez de bons títulos a que me refiro. Esta película alemã, cujo nome nos transporta para um universo decerto comunista, oculta de forma encantadora a necessidade desta epígrafe. O filme desenrola-se na Alemanha dividida, mais concretamente do lado de lá do muro, numa altura em que o regime comunista parece prestes a dar os seus últimos suspiros de vida. Sucede então, que pouco antes da queda do muro, a mãe do protagonista entra em coma, e não acorda até que toda a evidência da sociedade em que sempre viveu seja substituída pela máquina capitalista, com rapidez e eficácia tais que a Blitzkrieg hitleriana se sentiria vexada perante tão descomplexada empresa. O desenlace do filme determina entretanto a dramática (porém cómica) tentativa do filho em proteger a ressuscitada mãe da invasão dos valores ocidentais de liberalização económica. Contudo, o pináculo da narrativa fica reservado para o momento em que a pobre mãe, vendo-se finalmente livre do hermético controlo da sua cria, se depara com a alienígena visão de uma Alemanha forrada a painéis publicitários, quando do céu surge, transportada por um helicóptero, uma estátua de Lenin de braço estendido em jeito de despedida. E é aí que o título do filme se desacorrenta da sua mera função de etiqueta, para fornecer àquela cena uma grandiosidade simbólica, de outra forma inatingível.


Este é o verdadeiro alcance que um perfeito uso da palavra é capaz de atingir. Enquanto que a necessidade básica do uso da palavra se confina à tradução de conceitos para linguagem comunicável e objectiva, a fim de fornecer informação para descobrir relatividade, o autor do filme contorna essa utilização comum atribuindo-lhe uma função que ultrapassa vastamente o seu valor concreto e fornece-lhe uma dimensão simbólica poucas vezes disponível fora da arte puramente literária. De qualquer das formas há-de sempre haver quem determine que o filme do Spiderman deva ser estandardizadamente chamado "Spiderman", e daí seja fácil perceber que a mestria do uso da palavra vá muito mais além do que saber juntar meia dúzia de vocábulos para simplesmente encontrar forma de denominar algo. 

Mas pronto isto tem o valor que tem quando é dito por alguém que encabeça os seus textos com números. 

Gustavo Santos

terça-feira, 1 de maio de 2012

REALIZADORES: OTAC NA SLUZBENOM PUTU (1985)



Recentemente tive que tomar a difícil decisão de terminar com a periodicidade nas minhas crónicas. Algo que me custa, de facto, mas que se tornou impossível de conciliar com todo o trabalho da faculdade. Nenhuma das minhas três crónicas pessoais desaparecerá. Apenas deixarão de ter um espaço pré-definido para aqui aparecerem. Para a nova crónica da rubrica REALIZADORES, optei por falar-vos de um dos mais peculiares artistas europeus dos últimos anos: Emir Kusturica. Vencedor de duas Palmas de Ouro em Cannes, com prémios, nomeações e reconhecimento mundiais, é um dos mais importantes nomes do cinema actual, produzindo arte em quantidade e em qualidade muito próprias.


Escolhi a sua primeira Palma de Ouro para o representar. Com o título português de "O meu pai foi em viagem de negócios", este é um dramático relato da Jugoslávia no pós-Segunda Guerra Mundial, sob o domínio opressor do Comunismo soviético, onde o desafio à ordem se pagava de forma dura e cruel. Um ambiente cinzento, frio, quase medieval. Malik é a personagem central de um filme que envolve diversas personagens, vidas e problemas. Relata-nos paulatinamente uma história que se desenrola com vagar, onde tudo começa com a forçada, inesperada e inexplicável (aos olhos inocentes e infantis de uma criança) ausência do seu pai, um homem que trabalha arduamente para o seu partido, e que, sem problemas, vive uma vida dupla com as suas amantes. A sua mãe, uma mulher habituada a batalhar os problemas sozinha, aguentando as dificuldades da família e reservando respeito, carinho e admiração pelo seu marido, é a personagem mais tocante de todo o filme. A sua perseverança é admirável e encorajadora.

Esta ausência, a força motriz de todo o filme, é narrada ao espectador entre uma descolorada Sarajevo e uma inóspita vila para onde Malik e a família são obrigados a deslocar-se enquanto aguardam a libertação do seu pai, preso pela cobarde denúncia de uma das suas amantes. As emoções e as reflexões de uma criança são o condimento para uma história que nos recorda os tempos difíceis de um povo que demorou a encontrar a paz e a tranquilidade. O dedo subtil de Kusturica, nos diálogos, no humor súbtil, nas histórias, nas personagens, é indissociável de todo o filme. É o marcar de uma posição, distanciando-se dos demais e definindo um rumo próprio. Aclamado pela crítica, OTAC NA SLUZBENOM PUTU é o primeiro ponto alto de uma carreira que continua a rechear-se com sucessos, prémios e estatuetas. Quando ouvimos o nome de Kusturica, sabemos que, com ele, vem sempre agarrada a irreverência, a qualidade e a novidade. O que nos traz, tem sempre que ser recebido de braços abertos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

HABEMUS PAPAM (2011)



Foi um verdadeiro prazer ver o mais recente filme do Mestre Moretti. Mestre sim, porque é um indivíduo cheio de particularidades, manias e adereços, que o tornam uma figura empática para com o grande público, com filmes distintos e cativantes. Mas afirmações controversas à parte, Habemus Papam é uma divertida comédia negra, que aconselho sinceramente ao leitor preparado para se surpreender com a ousadia da escrita de Moretti, com a atmosfera circense que se instala num Vaticano sem Rei nem Rock.


Temos então o final de um ciclo. A morte do Papa João Paulo II obriga que os cardeais se reúnam no seu sigiloso conclave, afastados do mundo, afastados da tensão exterior, do público que ansiosamente espera pela aclamação do novo líder da Igreja Católica. Nesta misteriosa reunião, o espectador é convidado. E aqui começa tudo. Um novo ciclo, um novo papa. A eleição de Michel Piccoli como novo sumo pontífice, marca o início de uma história que contagia sem complexos o leitor. O novo papa, aterrorizado com a dimensão da sua tarefa, ainda em choque com a sua inesperada escolha, claudica no momento de se apresentar aos seus súbditos.


Sem hipóteses de resignar ao seu cargo, mais por embaraço do que por falta de vontade, o novo Papa isola-se e o seu staff trata de encontrar o melhor psicólogo da cidade para o poder tranquilizar, para o poder compreender, para o conduzir ao caminho certo, da aceitação e da compreensão desta nova etapa. E aí entra um relaxado Nanni Moretti, sempre com uma resposta pronta, que tenta de tudo para entender a posição do seu paciente. Não consegue, desiste e confia-o prontamente à sua ex-mulher, segundo o próprio, a melhor psicopatologista do país depois de si. Decide então entreter-se com o resto da malta (leia-se Cardeais), que por força da indecisão do seu antigo colega, se viram obrigados a continuar em clausura.


Enquanto no Vaticano se joga às cartas, se fazem apostas ou se disputam mini-campeonatos mundiais de voleibol, o secretário pessoal do novo Papa tenta de tudo para tranquilizar o seu novo patrão, levando-o a passear, tentando que este respire novos ares, compreenda e se habitue à sua nova realidade. E é nestas saída, altamente sigilosas, que Michel Piccoli se escapa da sua rigorosíssima segurança e calcorreia Roma, conhecendo novas pessoas, novas realidades, novos ambientes. E é isso que lhe traz, devagar, um sorriso ao rosto e o alivia da tensão demolidora que o acorrentava desde o dia do conclave. Habemus Papam (que tem tudo para ser mal recebido pelos fanáticos) é uma história pertinente. É um abanão nos pilares do Vaticano e um filme corajoso. Nanni Moretti arriscou e arriscou bem. E é por isso que é diferente do que existe em Itália, e do que existe na Europa.


Nota Final:
B+



Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Nanni Moretti
Argumento: Federica Pontremoli, Francesco Piccolo e Nanni Moretti.
Ano: 2011
Duração: 102 minutos

domingo, 13 de novembro de 2011

REALIZADORES: THE SEVENTH SEAL (1957)

O Dial P for Popcorn inicia hoje mais uma crónica mensal! Uma crónica diferente e especial, que terá duas edições mensais, uma escrita por mim e outra escrita pelo Jorge e onde nos dedicaremos a analisar os melhores filmes daqueles que foram e são os grandes realizadores da história do cinema. A nossa vontade é explorar com alguma profundidade as carreiras marcantes do grandes mestres que deixaram a sua marca na sétima arte, analisar os seus momentos mais altos e divulgá-los aqui no blogue. Realizadores, a nova crónica do Dial P for Popcorn junta-se assim às já habituais crónicas do British TV, A Morte da 7.ª Arte e Personagens do Cinema.




"Faith is a torment. It is like loving someone who is out there in the darkness but never appears, no matter how loudly you call."


Começamos por Ingmar Bergman. Confesso-vos que esperei alguns anos para ver um filme seu. Sentia que ainda não estava preparado. Sentia que devia amadurecer, conhecer mais cinema, conhecer mais ideias para depois enfrentar este monstro que se chama Bergman e que fez algumas das obras mais singulares e marcantes da sétima arte. Ontem atrevi-me. Atrevi-me e fiquei arrebatado. Era fácil chegar aqui e dizer-vos que Bergman é genial, brilhante, ímpar e completamente distinto. Era fácil dizer-vos que o filme é fantástico, incrivelmente cativante e emotivo e que este é um dos filmes que vou juntar aos melhores da minha vida.


Fácil era dizer-vos isto, complicado é explicar-vos o que se passa em The Seventh Seal que me deixou fixado ao ecrã durante hora e meia. Começo pelo princípio. Antonius Block (Max von Sydow) é um cavaleiro que, em pleno século XIV, regressa à sua terra natal. Encontra uma Suécia totalmente distinta daquela que deixou dez anos antes quando decidiu partir, juntamente com o seu escudeiro, para as cruzadas do sul da Europa. A Suécia do século XIV é um país consumido pela peste negra, entregue de uma forma fervorosa à religião e ao perdão de Deus, em que cidadãos excomungam e ostracizam os doentes e os pagãos são barbaramente condenados pelo exército e pela Igreja.


É quando ainda digere o choque desta realidade, que Antonius conhece a Morte (Bengt Ekerot personifica um assassino frio, calculista, que retira um imenso prazer da dor e da destruição que provoca - É cinema!), que lhe comunica que chegou a sua hora de partir. Surpreendido, Antonius convida a Morte para uma partida de xadrez, onde ambos jogarão a sua vida. Esta é uma partida longa, que se faz a espaços durante todo o filme, onde o espectador percebe como esta situação cruel e asfixiante é altamente prazerosa para uma Morte que é negra, sádica e fria.


Um filme forte, duro e pesado, onde Bergman explora de uma forma brilhante o ambiente medieval de uma Suécia em luta pela sobrevivência, onde o som e as imagens de uma civilização magoada nos petrificam. Bergman era um génio e este filme explica-nos o porquê. A forma como discute Deus, a Morte, o significado da existência humana, prova-o. São raríssimos aqueles que têm a capacidade de pensar desta forma. E destes, são ainda mais raros aqueles que conseguem fazer Cinema. Bergman é o nosso primeiro Realizador.


Nota Final:A+


Trailer:





Informação Adicional:

Realização:
Ingmar Bergman
Argumento:
Ingmar Bergman
Ano
: 1957
Duração: 96 minutos

sábado, 22 de outubro de 2011

Belle du Jour, Belle Toujours!


São raras as actrizes que se conseguem transcender num grande papel, quanto mais em vários. Ainda mais raras são as actrizes estrangeiras que têm essa possibilidade. E, se tivermos em conta que até aos dias de Marion Cotillard e Juliette Binoche, foi esta a única actriz francesa a penetrar nas listas sagradas de casting de Hollywood e que isto tudo se deu logo após a Idade de Ouro do cinema norte-americano, nos anos 50 e 60, ainda mais impressionante se torna.
Que esta actriz tenha conseguido o feito de se reinventar mil vezes, de se perder em milhares de papéis, pequenos ou grandes, para maiores e menores mestres, de Honoré a Buñuel, de Polanski a Demy, de Téchiné a von Trier, de consistentemente trabalhar na plenitude dos seus talentos e capacidades e mantendo intocável a beleza marcante que a imortalizou é uma prova do gigantesco brilho, carisma e talento da aniversariante Catherine Deneuve, que comemora - notem bem - 68 anos de idade!


Tenho que admitir desde logo que não sou um completista da filmografia de Deneuve, embora gostasse muito de o ser. Do que vi, não há um filme em que o misticismo, a aura de mistério, a beleza fulgurante, o sorriso que emana simpatia e calor, não estejam presentes. As minhas interpretações favoritas dela são em "Repulsion" de Roman Polanski, em "Les Parapluies de Cherbourg" de Jacques Demy, em "Dancer in the Dark" de Lars von Trier, "Ma Saison Préférée" de André Téchiné, "Un Conte de Nöel" de Arnaud Desplechin e finalmente - e obviamente - na obra-prima de Luis Buñuel, "Belle de Jour".


 A inesquecível interpretação dela em "Belle de Jour", em particular, funciona como um ensaio de condensação das qualidades de representação de Deneuve. Hipnótica, sensual, electrizante, misteriosa, enigmática, uma verdadeira mulher de sonho, a lembrar Jane Fonda em "Klute", Nicole Kidman em "Eyes Wide Shut" ou Anne Bancroft em "The Graduate", Catherine Deneuve entrega-nos uma performance inspirada, algo que dela ainda não tínhamos visto. Brilhante.

Portanto... Parabéns Catherine Deneuve! Que celebre muitos! E que continue sempre a surpreender-me, como fez o ano passado em "Potiche" de François Ozon. Que interpretação.


E vocês, qual consideram ser a melhor interpretação de sempre da enorme Catherine Deneuve?

sábado, 20 de agosto de 2011

DAS BOOT (1981)




Um daqueles filmes que se tornam épicos, inesquecíveis, memoráveis e eternos. Este é daqueles filmes sobre o qual se fala hoje com o mesmo entusiasmo de há 10 anos atrás. Uma das obras mais portentosas e magníficas sobre a Segunda Guerra Mundial (um tema que eu adoro e que, penso, é praticamente inesgotável) e a difícil luta dos marinheiros que combateram em submarinos. Pessoalmente, a vida num submarino transcende-me. Não me sinto capaz de imaginar o enorme sofrimento e ansiedade passados durante tantas horas, num local tão apertado e claustrofóbico, rodeado de toneladas de água sob a constante ameaça de navios poderosos e com artilharia suficiente para, a qualquer momento, ditar o fim das vidas de tantos homens.


Neste filme, sobressaem três personagens de vital importância. O Comandante Henrich Lehmann-Willenbrock (Jürgen Prochnow) é o homem mais experiente a bordo, habituado à vida do mar, dos submarinos e das lutas entre nações. É ele que coordena um conjunto de jovens ambiciosos, que lutam pela pátria e que partem numa aventura para a qual não foram preparados e que desconhecem por completo. À habitual tripulação, junta-se o Tenente Werner (Herbert Grönemeyer), um jovem jornalista (correspondente de guerra), que viaja com o objectivo de criar um romance histórico baseado na viagem do submarino 96. Por último, uma personagem cuja força e presença vão crescendo com o passar do filme e que se transforma num inesperado herói nos momentos mais críticos de todo o filme: O Engenheiro Fritz Grade (Klaus Wennemann) a quem é entregue a responsabilidade de corrigir os diversos problemas que o submarino vai sofrendo e que combate toda e qualquer adversidade com bravura, calma e firmeza. É a ele que todos os homens devem a sobrevivência de uma jornada tão longa e tão perigosa.


Com a tradução para o português de Odisseia do Submarino 96, Das Boot (na versão Director's Cut que eu tive oportunidade de ver) é realmente uma obra de arte marcante. É um dos grandes filmes de guerra que o espectador pode ver, mesmo que para isso tenha que disponibilizar quase 200 minutos do seu tempo. Vale todos esses minutos. Das Boot é um filme longo e demorado, pois tudo é pensado ao pormenor e nada é tratado ao desbarato. O seu suspense é cortante e aumenta de forma dramática nos seus momentos finais. Uma obra onde se nota um trabalho de produção e edição excelentes, que transmite com bastante veracidade as adversidades e o terror de uma batalha dentro dos oceanos.

Nota Final:
A



Trailer:





Informação Adicional:
Realização:
Wolfgang Petersen
Argumento: Wolfgang Petersen e Lothar G. Buchheim
Ano: 1981
Duração: 199 minutos

domingo, 13 de março de 2011

IN A BETTER WORLD / HAEVNEN (2010)



É muito bom. Haevnen é uma maravilhosa metáfora. Uma criação pensada com requinte, pormenor e inteligência.


Christian
é novo na escola. Vindo de Londres, ocupa o lugar vago na secretária onde está sentado Elias. "O Rato", como é gozado pelos mais velhos da escola, fica feliz por finalmente ter alguém com quem conversar. Ao ver a forma corajosa como Christian enfrenta Signe, quando este o tenta intimidar como o fazia diariamente com Elias, este automaticamente o toma como seu ídolo, e faz por tudo para o acompanhar.


Ao mesmo tempo, vamos conhecendo Anton, pai de Elias, que trabalha como médico voluntário no coração de África, onde as injustiças, os maus-tratos e a violência são um constante. Numa das visitas a casa, Anton (que se encontra divorciado da mãe de Elias), é agredido por um desconhecido após ter separado o seu filho mais novo de uma briga com um garoto da mesma idade.
A experiência obtida pela sua actividade em África, faz com que Anton se resigne e explique aos seus filhos que a violência e a agressão nunca são a solução. No entanto, Christian, que presencia a agressão, está disposto a fazer justiça pelas próprias mãos. E convence Elias a um acto louco.


Ao mesmo tempo que Christian e Elias vão criando o seu próprio plano, Anton é confrontado, em África, com a necessidade de tratar o vilão da zona onde trabalha, cujo fetiche é retirar a sangue frio os bebés das mulheres grávidas.

Com tantos acontecimentos, Anton pergunta-se a si mesmo de que lado está a justiça. O que é realmente correcto. A justiça popular é sempre uma solução controversa, muitas vezes socialmente reprovável, mas quase sempre um acto de desespero, perante a inoperância de quem realmente deve impôr a justiça e a ordem. Um riquíssimo argumento, num filme surpreendente.


Nota Final:
B+


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Susanne Bier
Argumento: Anders Thomas Jensen
Ano: 2010
Duração: 119 minutos

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

LADRI DI BICICLETTE (1948)


Um filme profundamente triste e estrondosamente comovente. Uma história simples, eternamente actual e sem precisar de grandes recursos. O argumento do filme é excelente.


Ladri di Biciclette é um filme que nos fala dos tempos de crise numa Itália ainda a recompor-se dos efeitos da Segunda Guerra Mundial, em que Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani), um jovem chefe de família, encontra finalmente trabalho como (e agora a minha ignorância remete-me para este termo rudimentar) "afixador de posters", que o obriga a vender o enxoval da sua mulher para comprar uma bicicleta. Maravilhado com a compra e perspectivando um futuro melhor para si e para os seus, parte para o seu primeiro dia de trabalho com o seu filho, uma amorosa criança de seis anos que para ajudar às despesas da casa, engraxa sapatos nas ruas de Roma.


Antonio está decidido a vingar na sua nova profissão e durante o primeiro dia concentra-se na sua tarefa de colocar os posters como lhe foi ensinado. No entanto, a distracção e a imprudência de quem é novato e ingénuo, leva a que a sua bicicleta seja roubada. Assim que se apercebe, Antonio corre até as suas forças lhe faltarem, entrando inclusivamente num taxi, onde conta com a "ajuda" de um parceiro do assaltante, que o desvia para uma trajetória diferente da do assaltante. Desesperado, procura por toda a cidade a sua bicicleta, até que ao cair da noite regressa a casa, infeliz e derrotado.


E é aí que decide que não irá virar a cara à derrota. Juntamente com o seu filho, iniciam uma busca incansável pela bicicleta, calcorreando todas as feiras e oficinas de Roma, investigando todos os becos e ruelas. Se terão sucesso na sua investida, é algo que o leitor terá que descobrir por si próprio. Seria criminoso da minha parte divulgar-vos os melhores e mais intensos momentos de um filme que é todo ele uma lição de vida. Ladri de Biciclette é um filme que merece a reflexão do espectador e um lugar de destaque na prateleira dos seus filmes.


Nota Final: A-


Trailer:




Informação Adicional:
Realização: Vittorio De Sica
Argumento
: Adaptação de Cesare Zavattini do livro de Luigi Bartolini
Ano
: 1948
Duração
: 93 minutos

domingo, 21 de novembro de 2010

BABAM VE OGLUM (2005)


Babam Ve Oglum é uma obra-prima. Um pedaço de maravilha, um dos pontos altos da história do cinema. Um filme que desde já vos anuncio, merece nota A+. Enquanto o vi, fui arrasado com um misto de emoções, desde a pura alegria à profunda tristeza. Em Babam Ve Oglum, a comoção é constante e os nossos sentimentos são estimulados das mais diversas formas.


Estamos na Turquia, na década de 80, quando Sadik vê a sua mulher falecer, ao dar à luz o seu filho Deniz. Sadik é um activista político que foi viver para Istambul para estudar jornalismo. Devido aos seus actos contra as políticas do governo, acaba por ser preso durante três anos. Durante todo esse tempo é torturado das mais diversas formas, acabando por perder a sua saúde. Condenado a uma morte a curto prazo, consequência da doença adquirida durante o tempo que esteve preso, decide pegar em Deniz e, juntos regressam a Aegean, onde o seu pai é um agricultor abastado e bem sucedido.


Com a sua chegada, percebemos a dimensão dos problemas de Sadik com o seu pai, Hüseyin. Este aceita o filho e o neto em sua casa, mas nunca dirige a palavra a Sadik, ainda ressentido pelo facto de o seu filho não ter seguido os estudos em agricultura e seguido os seus conselhos. Hüseyin viu isso como uma traição e jurou esquecer a existência do seu filho.

Com o passar do tempo, a beleza do filme torna-se mágica. Deniz é um rapaz adorável, uma criança fantástica e de uma inteligência surpreendente. Comoveu-me a sua relação com a avó e a tia, mas principalmente a sua relação com o avô que não é imediata e cuja evolução e cumplicidade vai sendo gradual. Todas as cenas entre ambos são marcantes e ficam-nos para sempre na memória.


No entanto, Sadik é um homem com um fim anunciado. E onde Babam Ve Oglum é soberbo é nesta contagem final, onde absorvemos todas as as suas cenas como as últimas. Onde o drama e a força dos seus actos são cada vez mais intensas e tocantes. Babam Ve Oglum é muito mais do que um "Must See". Babam Ve Oglum é obrigatório!


Nota Final: A+


Trailer:



Informação Adicional:

Realização: Çağan Irmak
Argumento: Çağan Irmak
Ano: 2005
Duração: 108 minutos