Dial P for Popcorn: Críticas
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domingo, 21 de abril de 2013

LOS AMANTES PASAJEROS (2013)


Pedro Almodóvar é um dos meus argumentistas de eleição. Depois da assombrosa história de "La piel que habito", de 2011, o realizador espanhol decidiu voltar ao seu estilo característico, que notabilizou o princípio da sua carreira como criador de comédias simples, de um estilo barato, brejeiro e invulgarmente popular. Ainda hoje  "¿Qué he hecho yo para merecer esto!!", de 1984, e "Mujeres al borde de un ataque de nervios", de 1988, são duas das minhas comédias favoritas. 


Mas em Los Amantes Pasajeros foi, talvez, longe demais. Não é fácil caricaturar rótulos, ainda para mais quando falamos de temas tão controversos como a homossexualidade, o sexo, as dependências e os tabus sociais. Meter tudo isto na classe executiva de um avião com destino à Cidade do México e, no final, construir um filme de sucesso, não era tarefa fácil. A reacção na sala de cinema foi positiva (felizmente o novo filme de Tom Cruise tem permitido algum sossego nas restantes salas de cinema) mas acredito que para alguns espectadores, Almodóvar tenha cometido alguns exageros. Eu próprio, que gostei bastante do filme, ao reflectir um pouco no final, penso que o tema da homossexualidade sai ligeiramente denegrido de um filme que, me parece, tinha como propósito libertar mentes e quebrar complexos, no mais informal Almodóvar dos últimos anos.


Num ambiente relaxado, com as caras mais conhecidas dos seus filmes, o espectador atento e interessado, há muito convencido pelo espanhol e disposto a entrar na brincadeira de Almodóvar, não dará pelo tempo passar. A viagem é rápida, divertida e animada. Tem, pelo meio, um minuto de filme verdadeiramente louco (onde a sala de cinema emudeceu perante o choque e a ousadia das cenas) e termina de forma alegre com um tema muito bem escolhido do mais recente álbum da banda inglesa Metronomy. Uma cartada de mestre, a deixar bem claro que, mesmo a brincar, Almodóvar sabe o que está a fazer.


Nota Final 
B+ 
(8/10)


Trailer


Informação Adicional
Realização: Pedro Almodóvar
Argumento: Pedro Almodóvar
Ano: 2013
Duração: 90 minutos

sexta-feira, 12 de abril de 2013

THIS IS 40 (2012)



Nem só de bons filmes se faz um blogue de cinema, não é verdade? Neste caso, sinto-me na obrigação, no dever cívico, de avisar todos os que ainda acreditam em Judd Apatow e todos os que, não conhecendo nem se preocupando com quem é o individuo, apostam o seu tempo, o seu dinheiro e a sua disposição num filme de tão insultuosa categoria. Apatow foi chão que já deu uvas. E Nuno Markl, no seu característico estilo, atribuiu-lhe a alcunha de sucessor de Woody Allen. Tem razão, se estivermos a falar do Woody Allen de You Will Meet a Tall Dark Stranger


This is 40 é terrível. É péssimo. É muito muito muito mau. O objectivo? Fazer uma comédia baseada nos dramas de uma geração que, criada num mundo em transformação, progressivo e inovador, se aproxima da meia idade e começa a dar lugar a uma geração jovens, descomplexada e irreverente. O resultado? Uma história patética, pindérica, supérfula, materialista, numa família de novos ricos (aparentemente baseada na própria família de Apatow) que consegue, ainda, cometer um pecado capital de revelar, sem qualquer pudor ou respeito pelo espectador, um spoiler explícito do final da série Lost.

Os dramas da família de Apatow começam na falta de bateria do iPad. Não queira saber onde acabam.


Nota Final:
(0/10)


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Judd Apatow
Argumento: Judd Apatow
Ano: 2012
Duração: 134 minutos

domingo, 7 de abril de 2013

SIDE EFFECTS (2013)


Fui ao cinema depois de uma prolongada ausência. Mais voltado para os livros e com uma penosa seca cinematográfica até Outubro, confesso-me com pouca paciência para a 7.ª Arte. No entanto, com saudades da cadeira, da sala, do grande ecrã, obriguei-me a escolher um filme e arrastei-me até ao centro comercial sem grandes expectativas. Depois de Magic Mike, fiquei na dúvida se Steven Soderbergh ainda teria algo de refrescante para oferecer, algo que me recordasse estar a ver o novo filme do realizador do espectacular Traffic. O elenco atraiu-me. Bem, (e que a minha Rita me perdoe) Rooney Mara atraiu-me. Está ainda longe de tudo daquilo que nos vai mostrar (Millenium 1 foi obviamente brutal, mas acredito que conseguirá ainda melhor) e em Side Effects volta a demonstrar uma qualidade e uma consistência invulgares para a sua idade e para a sua experiência.


O argumento do filme é um belo pedaço de história. E uma ideia criativa, rebuscada e bem trabalhada. Começamos com um bem-vestido Jude Law, no papel o sofisticado e bem sucedido psiquiatra Jonathan Banks, que numa atarefada noite de trabalho, recebe na urgência do Hospital uma jovem com um traumatismo provocado por um insólito acidente. Emily Taylor (Rooney Mara) acabara de tentar suicidar-se ao embater propositadamente com o seu carro contra a parede de um estacionamento subterrâneo. Intrigado com a situação e interessado em rechear a sua carteira de clientes, Dr. Banks convida-a a visitar o seu consultório uns dias mais tarde.


Conhece então a sua história. Emily, já com um historial psiquiátrico de relevo (visitara, com frequência, a psiquiatra Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones) alguns anos antes), é uma jovem que vive um momento conturbado na sua vida. O seu marido tinha sido recentemente libertado de 4 anos de prisão e, a necessidade de se adaptar e de se reajustar à sua nova realidade depois de vários anos de saudade, solidão e dor, pareciam demasiado fortes, demasiado pesados para a sua bagagem. Aconselhado por Dr. Siebert, Dr. Banks prescreve a Emily um novo anti-depressivo, altamente publicitado e com francos e públicos sucessos. No entanto, tudo se altera quando Emily começa a manifestar alguns inesperados efeitos secundários que, num ápice, transformam a paradisíaca rotina de Jonathan Banks, num desesperante beco sem saída. Efervescente, surpreendente e muito bem construído, Side Effects é toda uma surpresa. Do princípio ao fim. Aconselho-o ao leitor.

Nota Final: 
(7/10)


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Steven Soderbergh
Argumento: Scott Z. Burns
Ano: 2013
Duração: 106 minutos

terça-feira, 26 de março de 2013

Porque nunca é demais lembrarmo-nos de IN THE BEDROOM (2001)




Esta crítica, por assim dizer, faz parte da rubrica "O Cinema dos Anos 2000" do Keyzer Soze's Place, na qual participo ao lado de outros porreiríssimos bloggers. Espreitem tudo AQUI. Ao Samuel agradeço o convite, aos bloggers a que me junto agradeço a companhia e, sobretudo, os múltiplos ensinamentos que retiro de cada um dos seus textos.



Através de uma história aparentemente inofensiva, Todd Field cria um drama cruel, onde as revelações são lentas, as emoções turbulentas e não há grande catarse ou final feliz – só feridas abertas, bem vincadas e vidas arrasadas, transformadas de um dia para o outro no seguimento de uma enorme tragédia. Uma tragédia bem familiar e por isso mais temível ainda, que poderia acontecer a qualquer um de nós. Uma situação tão confrontante, que catalisa e impulsiona o filme, mexendo com ele de forma bela e complexa, que transparece o ecrã e nos faz também nós sentir a mudança. Uma mudança permanente, definitiva. 


IN THE BEDROOM fala de amor e saudade, de luto e remorso, de ódio, rancor e vingança. No fundo, o filme fala sobre sobrevivência. Não de um ponto de vista primitivo, real, mas sim em relação à forma de estar no mundo, como se a vida destas personagens dependesse disso, da necessidade em voltar a um normal que conheciam anteriormente e ao qual não há ponto de retorno. Esta é a história deste casal, de Matt e Ruth e da penosa e dolorosa adaptação que a sua relação e o seu mundo vão ter que sofrer. Duas brilhantes interpretações de Sissy Spacek e Tom Wilkinson, que connosco partilham tudo o que sentem e pensam. Emoções tão profundas e internalizadas e ao mesmo tempo tão facilmente acessíveis, mal escondidas por debaixo da superfície aparentemente estoica e firme, duas personagens imperfeitas e reais, gente boa, trabalhadora e gentil, simplesmente a viver a sua vida dia após dia. 


Um dos dramas mais fascinantes do início do século XXI e seguramente um dos melhores da década, IN THE BEDROOM reúne todas as qualidades do cinema independente norte americano – excelente elenco, com muitos actores talentosos subaproveitados pela indústria (como a fabulosa Marisa Tomei), bons valores de produção e um argumento desafiador, fugindo às fórmulas convencionais, tudo a baixo custo – e tem em Field um timoneiro com uma seriedade e certeza pouco comuns num realizador-argumentista à frente do seu primeiro filme. Um caso sério de sucesso, confirmado pela aclamação crítica, pela receita de bilheteira surpreendentemente estrondosa (36 milhões de lucro só nos Estados Unidos da América!) e as cinco nomeações aos Óscares, de visualização obrigatória.


*Uma adenda ao texto: sim, eu teria votado nos três actores (Spacek, Wilkinson, Tomei) nos Óscares. São enormes, cada um deles. E a Sissy Spacek come o cenário, a tela, tudo. Genial.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

GANGSTER SQUAD (2013)


Comecei a antevisão a este filme bem antes da sua chegada a Portugal. Era impossível ficar indiferente perante um elenco tão bem cotado. A juntar a isto, o facto de estarmos perante uma história verídica que ocorreu nos tempos loucos de uma Los Angeles em completa ebulição. Uma sociedade que se começou a descobrir nos primeiros anos após a Segunda Grande Guerra, deu espaço ao crescimento de novos e ambiciosos criminosos. 


Mickey Cohen (Sean Penn) é o rosto e a força motriz deste filme. Um criminoso sem escrúpulos, líder absoluto de um poderoso gang que, paulatinamente, vai conquistando a Costa Oeste, é idolatrado pelos seus súbditos e respeitado por alguns dos mais importantes homens da justiça de LA. Sem conseguir ficar indiferente perante a passividade e a cumplicidade de alguns dos seus colegas e temendo um futuro negro para a sua cidade, o detective John O'Mara (Josh Brolin) decide reunir um grupo de leais e corajosos polícias, nos quais se incluem Jerry Wooters (Ryan Gosling) e Conway Keeler (Giovanni Ribisi), que se dispõe a abdicar de tudo para destruir o império de Mickey Cohen e acabar com o submundo do crime e da corrupção.


É uma história/argumento ambicioso. E em alguns dos seus aspectos técnicos, Gangster Squad consegue atingir os objectivos a que se propôs. Vemos cenários trabalhos com cuidado, numa tentativa de representar de forma fiel e natural o principio dos Anos 50. Temos, também, personagens bem caracterizadas e perfeitamente enquadradas no espaço temporal do filme. Mas fica a faltar qualquer coisa. Há algumas falhas clamorosas na realização e na montagem do filme (em especial nas cenas de acção, feitas de forma um tanto ou quanto atabalhoada) e Ruben Fleischer poderia, claramente, ter aproveitado melhor a matéria prima que tinha em mãos. No entanto, é um filme divertido, que consegue entreter durante os seus 113 minutos. No final, valeu o dinheiro do bilhete.

Nota Final 
(6,5/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: Ruben Fleischer
Argumento: Will Beall, Paul Lieberman
Ano: 2013
Duração: 113 minutos

domingo, 17 de fevereiro de 2013

SILVER LININGS PLAYBOOK (2012)


"I'm just the crazy slut, with a dead husband! Fuck you!"

David O. Russell é um realizador extremamente completo. É, graças ao seu trabalho nos últimos anos, um dos meus realizadores favoritos. A versatilidade dos seus projectos e a forma trabalhada e dedicada com que os apresenta, fazem dele um realizador habitualmente bem recebido (não só pelos espectadores, como também pela Academia). E Silver Linings Playbook é um projecto que, de tão improvável nas mãos de O. Russell, tinha tudo para ser bem conseguido. É uma história moderna (e isso é muito bom, num ano em que os melhores filmes nos falam de tempos idos e histórias passadas) e utiliza dois dos rostos mais simpáticos e unânimes de Hollywood: Bradley CooperJennifer Lawrence, secundados pelo lendário Robert De Niro, num dos mais descomprometidos papéis da sua carreira (que, curiosamente, lhe poderá valer mais um Oscar!)


Numa sociedade carregada de problemas, os psicotrópicos são os melhores amigos das almas mais frágeis. E porque quem cria os psicotrópicos não é parvo, este novo melhor amigo do homem tem, em alguns casos, a fantástica capacidade de juntar ao vício, a capacidade queimar os poucos fusíveis que ainda se encontram sãos. É o caso de Pat (Bradley Cooper), um trintão que descompensa por completo dos seus delírios paranóicos após encontrar a sua ex-mulher em flagrante traição com um colega de trabalho. Após meses internado, Pat recebe um voto de confiança dos seus médicos e regressa para a sua casa. Pleno de energias e decidido a reconquistar a sua ex-mulher, o caminho tortuoso para a dura realidade da rejeição coloca-o em rota de colisão com a depressiva Tiffany (Jennifer Lawrence), de costas voltadas para o mundo desde a dolorosa separação do seu ex-namorado.


Uma história suave, um filme leve, bem disposto e sempre positivo. A prova de que a felicidade está onde menos a esperamos encontrar e de que tudo na vida é uma simples questão de perspectivas  Uma dupla de sucesso que conseguiu rechear o filme de nomeações para as principais categorias dos Oscars (o primeiro a conseguir nomeações em todas as principais categorias! - Diz-se até que foi David O. Russell quem retirou a Ben Affleck a tão merecida nomeação por Argo), que é, tal como tudo aquilo que O. Russell faz, um sucesso. O futuro é tão risonho para o realizador Nova-iorquino.

Nota Final
B+ 
(8/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: David O. Russell
Argumento: Matthew Quick e David O. Russell
Ano: 2012
Duração: 122 minutos

sábado, 16 de fevereiro de 2013

SEARCHING FOR SUGAR MAN (2012)


A poucos dias de vencer o Oscar para Melhor Documentário, depois de ter coleccionado prémios, nomeações e um profundo reconhecimento em alguns dos principais festivais e prémios da Sétima Arte (Sundance, PGA e BAFTA, por exemplo), aparece aqui no Dial P for Popcorn como o meu documentário favorito de 2012. Não vi uma parte (considerável) dos restantes, é certo, mas a lendária história de Sixto Rodriguez é de uma brutalidade tal, que transforma um documentário numa história/romance surpreendente e intrigante. Com uma banda-sonora tão viciante e refrescante, é impossível não idolatrar esta voz.


Estamos na década de 70, quando o boom nas empresas discográficas e na difusão da música nos Estados Unidos, dá lugar ao aparecimento de estrelas que se tornaram imortais e que inspiraram/inspiram uma boa parte dos músicos e da sociedade moderna. Jimi Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan, apenas para citar alguns nomes. Se qualquer um deles é uma incógnita para o leitor, o seu caso é grave. No entanto, se o nome Sixto Rodriguez era, para o leitor, uma incógnita, Searching For Sugar Man vai apresentar-lhe uma das mais dramáticas e inesperadas estrelas da história da música.


Estamos perante um fenómeno que o tempo teimou em apagar. Uma lenda. O verdadeiro Bob Dylan. Sixto Rodriguez, um jovem cantor Folk, vê a sua carreia ser precocemente abortada pelas fracas vendas dos seus dois álbuns. Tudo o que ficou desse tempo, na então dura e cruel cidade de Detroit, foram as memórias e a mágoa pelo desaparecimento de uma das mais inspiradoras vozes que a América alguma vez tinha ouvido. No entanto, do outro lado do Atlântico, num país de costas voltadas para o mundo, onde a sociedade fervilhava e se preparava para explodir com o Apartheid, Rodriguez era uma das vozes que inspirava uma sociedade jovem, rebelde e plena de irreverência. Era a voz de comando, o ídolo, o mentor que reforçava as ideias de um país que lutava pela igualdade e pela liberdade. Searching For Sugar Man é o documentário que levanta o pano que encobria um dos mais enigmáticos songwriters da história. É o reencontro com um ícone que se julgava  há muito na companhia de Hendrix ou de Joplin. É o renascer de uma lenda.


Nota Final
B+ 
(8/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: Malik Bendjelloul
Argumento: Malik Bendjelloul
Ano: 2012
Duração: 86 minutos

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

DJANGO UNCHAINED (2012)



"I like the way you die, boy."

Não sou um fan irracional de Tarantino. Aceito que se encontra um pouco sobrevalorizado, quase histericamente valorizado, embora goste da grande maioria dos seus filmes. Depois de um Inglourious Basterds bastante inglório, o que vi em Django Unchained surpreendeu-me a TODOS os níveis. Não contava que, 20 anos depois de surpreender o mundo com Pulp Fiction, Tarantino ainda fosse capaz de criar uma obra tão irreverente quanto refrescante, não só na sua carreira mas também naquilo que têm sido os últimos anos do cinema americano. Entrando pela primeira vez no seu (que é também o meu) género de cinema favorito, o Western, percebe-se que Django Unchained não é apenas mais um filme de Tarantino. É uma  demonstração categórica do potencial monstruoso que existe dentro de Tarantino. É, de longe, o seu melhor filme desde Pulp Fiction (tão bom quanto a sua consagrada obra), perdendo apenas para o inigualável Reservoir Dogs (vamos voltar a ter um primeiro filme tão brutal para o cinema quanto este?).

Aproveitando um leque bem recheado com actores de uma tremenda qualidade (quem pode, pode...), numa mistura invulgar (quem imaginava, há meia dúzia de anos atrás que DiCaprio e Samuel L. Jackson, ou mesmo Jamie FoxxChristoph Waltz seriam compatíveis?) magistralmente aproveitada e enriquecida pela narrativa de Tarantino, embalada por uma moderna, cativante e empolgante banda-sonora, paradoxal num Faroeste Americano tipicamente cheio de espingardas, cavalos e homens de barba rija (Sergio Leone estará certamente feliz). É a Melhor Banda-Sonora do Ano. Que se ouve vezes sem conta, numa repetição frenética e viciante. Nas notas individuais, e começando por Christoph Waltz, a personagem de Dr. King Schultz, um letal e implacável caçador de bandidos, que viaja pelo país disfarçado de dentista, é uma desilusão pelo facto de se tratar de uma reciclagem da personagem que desempenhou em Inglourious Basterds. Começo mesmo a achar que Waltz é apenas brilhante no papel do personagem germânico às ordens de Tarantino. É obviamente uma boa interpretação. Mas não traz nada de novo àquela surpreendente interpretação de há 3 anos.


Por outro lado, a melhor personagem do filme veio de onde menos se podia esperar. Samuel L. Jackson. Esse mesmo. No papel de um mordomo racista, autoritário e implacável, de uma lealdade profunda ao detestável Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), proprietário de frondosas e intermináveis fazendas, numa exploração sem escrúpulos de negros, é uma interpretação de uma dificuldade técnica tremenda, deixando boquiabertos muitos dos que julgavam sentenciada a carreira do homem que proferiu o salmo mais famoso da história do cinema. Juntamente com um competente e empenhado Jamie Foxx (Ray não foi um engano), são dois dos segredos do sucesso na história de Django, um escravo que luta pela sua liberdade, ao longo de uma jornada longa, intensa e turbulenta, num filme que alguns consideraram demasiado longo. Já vi filmes com menos de 100 minutos demorarem bem mais a passar. E porque estamos perante uma obra-de-arte, o espectador merece desfrutar de uma lição de cinema de um dos mais brilhantes criadores da história da sétima arte. São 165 minutos do melhor Tarantino dos últimos 20 anos. E estão no cinema, para o leitor desfrutar deles.

Nota Final 
A- 
(9,5/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: Quentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino
Ano: 2012
Duração: 165 minutos

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

THE IMPOSTER (2012)



Venceu ontem o BAFTA na categoria de Melhor Estreia de Argumentista, Realizador ou Produtor Britânico. Venceu, há uns tempos, o prémio para Melhor Documentário nos British Independent Film Awards. Esteve nomeado para o Grande Prémio do Júri no Sundance de 2012. Não me podia passar ao lado. Pessoalmente, a categoria de Melhor Documentário tem-se transformado, nos últimos anos, num género tão excitante quanto surpreendente. Todos os anos há deliciosas surpresas. E 2012 não lhe foge à regra. Vamos iniciar o nosso ciclo de análises aos melhores documentários de 2012 com um dos mais macabros planos que vi na minha vida. O dom camaliónico de Frédéric Bourdin é assustador.


Comecemos pelo princípio com a esperança de não vos revelar demasiado sobre um dos grandes impostores do nosso tempo. Uma chamada de um turista, alerta as autoridades espanholas para a presença de uma criança apática e desorientada, abandonada dentro de uma cabine telefónica. Assim começa mais uma aventura de Bourdin. Com um engenhoso e arrojado plano, Bourdin decide apresentar-se como Nicholas Gibson, um jovem americano, de 14 anos, que desaparecera do Texas em 1994. Estamos no final de 1997, quando a alegre noticia devolve a esperança à família de Nicholas, que o julgava para sempre perdido.


Carey Gibson, a irmã mais velha de Nicholas, viaja propositadamente para Espanha para identificar Frédéric como o Nicholas que desaparecera num final de tarde em San Antonio e o devolver ao seu quarto e à sua família. Com uma capacidade única para se adaptar às adversidades e uma arte para representar digna de tirar o sono a Daniel Day-Lewis, Frédéric consegue modificar a sua aparência e adaptar-se à de Nicholas, convencendo e justificando algumas das gritantes diferenças para com o jovem desaparecido. Mas o outro lado do Atlântico reserva a Frédéric uma surpresa para a qual este não estava preparado. O Karma, sempre irónico, sempre mordaz, esperou Frédéric no aeroporto de San Antonio. Se acha que já viu de tudo, prepara-se para o que The Imposter lhe reserva.

Nota Final 
B+ 
(8/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: Bart Layton
Argumento: Bart Layton e Dimitri Doganis
Ano: 2012
Duração: 99 minutos

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ZERO DARK THIRTY (2012)



"When you lie to me, I hurt you."


Saí da sala de cinema a meio de Hurt Locker (já o repeti aqui por várias vezes), depois de Kathryn Bigelow ter gozado comigo e me ter colocado perante uma das piores primeiras partes que já vi num filme (sobre a segunda parte, naturalmente, não posso tecer comentários). Hurt Locker ganhou o Oscar de Melhor Filme nesse ano e a Academia comprovou que o que importa é demonstrar a influência que o povo, a arte e o sonho americano têm neste mundo (Cinema não é com eles).


No entanto, com o argumento de Zero Dark Thirty, era impossível não ficar entusiasmado! A história da captura do homem mais procurado do mundo, a descoberta da agulha que nunca esteve no palheiro. Foi demasiado aliciante e conseguiu fazer-me esquecer o que se passou em 2009. Não era nada fácil fazer um filme sobre este tema. E a prova disso é a complexidade de figuras e acontecimentos que tiveram que se interligar com a personagem de Jessica Chastain (Maya), a mulher por detrás desta façanha.


No entanto, o principal problema de Zero Dark Thirty, está no leve trago a desilusão que vem com a monotonia com que se arrastam algumas das cenas. E, desculpem-me, mas todo o buzz à volta da interpretação de Jessica Chastain não faz muito sentido. Óbvio que estamos perante uma das grandes actrizes da actualidade, óbvio que a sua personagem tem uma importância fulcral em toda a história. Mas porque estamos perante uma obra que envolve diversas personagens, Maya vai-se apagando a espaços, vai aparecendo em solavancos, e vai-se perdendo constantemente a mensagem da personagem. Um processo cíclico que desgasta e desvaloriza a interpretação.


É um bom filme, é uma história (naturalmente) interessante, mas confesso que me deixou um pouco desiludido e confirmou a ideia que já tinha de Katrhyn Bigelow. É uma realizador que cultiva um estilo muito próprio de desenvolver uma história, que gosta de prolongar o timing das cenas e que privilegia o (seu) produto final ao potencial dos seus actores. Mas numa coisa Kathryn não desiludiu. A meia hora final do filme, que retrata com minúcia o momento do ataque ao forte onde se refugiava o inimigo número 1 dos Estados Unidos, é de uma intensidade impressionante, honrando a curiosidade dos muitos que foram assistir a este filme.

Nota Final 
(7/10)


Trailer



Informação Adicional
Realização: Katrhyn Bigelow
Argumento: Mark Boal
Ano: 2012
Duração: 157 minutos

sábado, 2 de fevereiro de 2013

TABU (2012)



Foi o grande filme português de 2012. E numa época de balanços (em que finalmente livres de exames da faculdade estamos mais disponíveis para o cinema), Tabu não podia deixar de passar aqui pelo Dial P for Popcorn. Galardoado no Festival de Berlim, Nomeado pelos Críticos de Londres e de Toronto, elogiado pelos quatro cantos do mundo. É realmente um belo pedaço de arte. Um orgulhoso momento de cinema em português, sobre portugueses e sobre o nosso Portugal além fronteiras. Arrojado sem ser pretensioso,  consciente das suas naturais limitações de produção, Miguel Gomes consegue fazer uma omelete sem ovos, colocando de lado o depreciativo estereótipo do típico filme português que ora tenta levar ao ridículo e absurdo o cinema de autor, ora tenta americanizar uma cópia já de si americanizada de um argumento feito com base em filmes americanos.


O filme corre em dois espaços temporais. Inicialmente, o espectador entra nas casas de Aurora, uma mulher no final da sua vida, amargurada pela solidão e pela saudade da sua filha, e de Pilar, sua vizinha, cinquentona solteira que vive o drama do decrépito final de Aurora. O espaço citadino de uma Lisboa que se despede de 2010 cheia de incertezas, dá lugar ao calor da Angola colonial, onde Aurora, então uma jovem cheia de beleza, energia e inocência, vive os seus primeiros anos de um casamento de sonho com um jovem bonito e bem sucedido. Este idílico cenário, onde o sonho e a fantasia se confundem com a realidade, é abalado pela chegada de Gianluca Ventura, um italiano galante, que conquista os olhos, o coração e o corpo de Aurora.


A história de um amor nas quentes terras africanas, quando a guerra colonial era ainda um projecto e os portugueses viviam afortunados, abastados e felizes numa terra que tomaram como sua. Com requintados pormenores, uma marca própria vincada em todo o filme, um argumento rico e muitíssimo bem escrito, Tabu aparece em 2012 para provar que Sangue do Meu Sangue, em 2011, não foi um mero acaso. O Cinema Português pode muito bem estar a virar a mais importante página da sua história. Veremos o que 2013 nos reserva. Quanto a Tabu, é filme.

Nota Final: 
B+ (8/10)


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Miguel Gomes
Argumento: Miguel Gomes e Mariana Ricardo
Ano: 2012
Duração: 118 minutos

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

THE IMPOSSIBLE (2012)



Dois rascunhos apagados e terceira tentativa de vos falar sobre The Impossible. Não é fácil escrever que não fiquei particularmente tocado e que não embarquei na onda eufórica de emoção à volta deste filme. E porque o bom do nosso mundo é cada um ter a sua opinião, The Impossible não me entusiasmou. Mas é um filme interessante. Não o nego. E sei que na TVI (ou na SIC) vão esfregar as mãos de contentes por terem mais um filme para passar vezes sem conta no Natal, na Passagem de Ano e nos Domingos à tarde em que não se dedicam a estupidificar o povo português com bailarinas pimba e playbacks dos irmãos Carreira e da família Malhoa (e mesmo quando não estão nesta palhaçada, conseguem escolher os mais insignificantes filmes feitos nos últimos 30 anos, que repetem ano após ano).


É uma história de amor, coragem e persistência que nos faz sentir orgulhosos das capacidades do ser humano. Em situações limite, cada um consegue ir buscar uma força que julgava desconhecida e, no caso do Tsunami do Índico, a provação humana chegou aos seus limites. A coragem dos milhares que, feridos (física e emocionalmente) se ergueram dos escombros e lutaram pela vida e pela dignidade, recebeu com este filme uma meritória homenagem. Embora se centre na história de luta de uma jovem família que decide resistir à separação forçada pela Natureza, todos os que sofreram com esta tragédia, certamente se sentiram reconhecidos nas varias personagens deste filme.


Maria (Naomi Watts) e Henry (Ewan McGregor)  decidem viajar até à Tailândia para um Natal à beira do paradisíaco calor do mar Índico. Juntamente com os seus três filhos, desfrutam das maravilhas de uma estadia de sonho. São felizes. Ali e em qualquer do mundo. Até que o Oceano se revolta perante a felicidade idílica desta família. The Impossible retrata a história, verídica, da luta de cada um dos 5 elementos desta família, e da sua desesperada tentativa de se reunirem. Com dois dos actores mais subvalorizados do cinema (Naomi Watts e Ewan McGregor), The Impossible é uma receita de sucesso. E é fácil perceber o impacto que causou nas salas de cinema.

Nota Final: 
B (7/10)


Trailer:



Informação Adicional:
Realização:  Juan Antonio Bayona
Argumento: Sergio G. Sánchez e María Belón
Duração: 114 minutos
Ano: 2012

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

MOONRISE KINGDOM (2012)



Ando há semanas para vos falar de Moonrise Kingdom. Mas a falta de tempo para, com calma e prazer, vos escrever sobre este delicioso filme, têm afastado esta crítica do Dial P for Popcorn. A mais recente referência que o Jorge fez ao filme aqui no blogue foi o empurrão que me faltava. Em primeiro lugar, dispo-me de fanatismos e créditos, e como humilde espectador de cinema, digo-vos que Moonrise Kingdom foi o primeiro filme de Wes Anderson que tive o prazer de ver. Não tinha noção do pedaço de génio que este rapaz é, confesso. Mas com Moonrise Kingdom, conseguiu convencer-me. Wes Anderson é grande. E daqui a uns anos vai ser enorme. E, com sorte, no final da sua carreira, vai ser imortal.


Começa pela forma como utiliza câmara de filmar. A fotografia de Moonrise Kingdom é uma delícia. Indescritível, charmosa, elegante. A característica do filme que mais me empolgou. Um argumento muito bem escrito, que se percebe, foi tranquilamente amadurecido, conta-nos uma história de um amor proibido, quando a tenra idade ainda justifica actos impulsivos e inconsequentes. A paixão obsessiva que une estes dois jovens é a força motriz de toda a acção. Sam é um rapaz ostracizado pelo seu grupo de escuteiros, que se apaixona por Suzy ao primeiro olhar. Suzy, uma rapariga incompreendida dentro de uma família disforme, aceita o convite de Sam e, juntos, decidem partir para, longe de complexos, julgamentos e preconceitos, viverem de forma intensa o amor que os une.


Nesta história de amor, Wes Anderson consegue colocar Bruce Willis e a Edward Norton em personagens que, não sendo de uma exigência técnica extrema, conseguem ser marcantes nas suas longas carreiras. E percebe-se facilmente a influência do realizador na forma harmoniosa como as suas personagens encaixam no elenco infantil. Moonrise Kingdom é um presente que Wes Anderson embrulha com requinte antes de o entregar ao espectador. Tem o potencial para se transformar, dentro de alguns anos, numa obra de culto. Aceitam apostas?

Nota Final:
A-


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Wes Anderson
Argumento: Wes Anderson
Ano: 2012
Duração: 94 minutos

sábado, 19 de janeiro de 2013

THE PAPERBOY (2012)



Estreou em Portugal na última semana de 2012, depois de uma muito badalada estreia mundial na edição de 2012 do Festival de Cannes. The Paperboy, com o brilhante título português "Um Rapaz do Sul", é fogo de vista. Uma capa. Um conjunto de nomes que luzem, mas que não são ouro. Mas tudo isto se explica se olharmos para o homem que decidiu pegar e adaptar o bem sucedido livro de Peter Dexter. Ele mesmo, Lee Daniels, o homem por detrás daquela nódoa negra do cinema chamada Precious. The Paperboy não é tão mau quanto o foi Precious (fazer pior seria crime), mas é dos filmes mais insípidos e incompetentes de 2012.


Paperboy é um filme sobre uma amarga história de amor. Fiquei com curiosidade de pegar no livro, pois acredito que, por detrás deste mau filme, está um livro com conteúdo e interesse. Ward (Matthew McConaughey) é jornalista do Miami Times e decide investigar o assassínio de um famoso polícia na sua terra natal. Determinado a provar a inocência de Hillary Van Wetter (John Cusack), o seu regresso a casa coloca Charlotte Bless (Nicole Kidman) na vida de Jack (Zac Efron), o seu irreverente irmão mais novo, que rapidamente se envolve na investigação de Ward para se aproximar desta mulher fatal.


A história é interessante e, até, rebuscada. Trabalho de Peter Dexter, só. Os erros de Lee Daniels começam logo pela escolha do protagonista. Zac Efron não passa de um azeitolas de olhos azuis. E se o objectivo era fazer dele um b-side de Robert Pattinson (demonstrar que, também Zac, é mais do que um sex symbol das miúdas apaixonadas por posters de parede), mais valia ter ficado quieto. Foi mau para ele. Foi mau para Zac Efron. E foi péssimo para Nicole Kidman, que se viu enrolada no meio desta confusão de ideias e intenções, pior que uma barata tonta, a desfilar vestidos XXS e perucas ressequidas. Salva-se um homem, no meio deste naufrágio. John Cusack. Um papel interessantíssimo enquanto vilão (surpreendentemente bom, inesperadamente refrescante), que traz qualidade, intensidade e acção, a um filme que se arrasta forçado ao longo de todas as cenas. Há ainda um satisfatório Matthew McConaughey (do qual não sou especial adepto) e uma banda sonora consistente e apropriada. E é tudo.



Nota Final: 
C-


Trailer:



Informação Adicional:
Realização: Lee Daniels
Argumento: Peter Dexter
Duração: 107 minutos
Ano: 2012

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

ANNA KARENINA (2012)



Pouco há a dizer sobre a história de “Anna Karenina” que já não tenha sido dito sobre as inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Todo o mundo sabe que o clássico de Tolstoi aborda a sociedade aristrocrática da Rússia do século XIX e a rigidez das suas regras e costumes, contando através da história da bela Anna Karenina, tragicamente condenada a sofrer por amor, como era viver na alta sociedade de então e, bem mais que isso, como era o ambiente político-social da sua Rússia. O que importa frisar, então, nesta adaptação de “Anna Karenina”, é que se trata da terceira colaboração entre Joe Wright e a sua musa, Keira Knightley (que voltam a trabalhar juntos após “Atonement” e “Pride and Prejudice” terem feito de um e outro, respectivamente, importantes figuras do cinema contemporâneo). 


Pragueado por problemas financeiros, “Anna Karenina” obrigou Wright a inventar na concepção da história e fazer algo mais experimental, mais ambicioso, mais arriscado (daí a dividida opinião acerca do filme). Wright propõe que “Anna Karenina” se passe dentro de um teatro – tornando literal a expressão “a vida é um teatro”, em que nós, humanos, somos como um elenco – espectadores da vida dos outros, protagonistas da nossa, muito conscientes de que outros nos olham e nos julgam pelo que fazemos (assim é a sociedade) – tal qual como se fôssemos meras peças de um jogo de xadrez, que nos movemos infindavelmente até que, por fim, a cortina se fecha para nós de vez. Anna Karenina pensa que pode fintar as regras. Pense de novo. As escolhas que fazemos ditam o nosso destino. E assim é para a nossa pobre heroína. 


A produção artística de Sarah Greenwood merece aqui uma ressalva, ao criar múltiplos mundos e a fazer enorme uso do espaço e, sobretudo, do ambiente confinado que lhe é dado, conseguindo conferir ao filme a mesma ilusão de quasi prisão, de clausura, de claustrofobia que Anna Karenina também mostra estar a atravessar (ajudada pelos corsetes bem apertados de Jacqueline Durran). Wright encena esta peça de forma apaixonante, precisa, mas fluída, brincando com este mundo que lhe é oferecido, criando alguns momentos verdadeiramente encantadores, trazendo vivacidade, amor, vitalidade e, finalmente, tragédia a esta peça. A atmosfera que Wright origina com uma simples mudança de cenário é infindável – aquela cena da valsa ainda hoje me assombra. A sagacidade do realizador vê-se também noutra forma de abordagem da história, ao focar-se não só no triângulo entre Anna, Vronsky (um terrível Aaron Johnson) e Karenin (um formidável Jude Law, pena o pouco tempo de ecrã), mas também em mais dois casais, como que a servir de exemplo contrastante para com o que se passa com Anna: o seu infiel irmão Stiva (o brilhante Matthew MacFayden) e sua esposa sofredora Dolly (Kelly MacDonald) e o jovem casal idealista e apaixonado, Levin (Domnhall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander, um achado de 2012). 


Outro elemento digno de nota é Dario Marianelli, também ele de regresso para uma quarta colaboração com Wright. Arriscaria dizer que Wright não faria o filme sem ele – até porque o compositor elaborou toda a música para o filme antes da filmagem, para que Wright pudesse coreografar certas cenas ao som da música. Marianelli, que merecia uma menção aos Óscares pela fantástica música de “Jane Eyre” o ano passado, volta a estar em grande. O mais ténue ranger de cordas desperta mil sentimentos e emparelha na perfeição com a face de Keira Knightley, mais uma vez a encaixar como uma luva num filme de período (a sua especialidade, de “A Dangerous Method” a “The Duchess”), mais uma vez impossível de não admirar. Quando Anna perde o controlo, a fragilidade que Keira exibe desarma o mais sisudo dos seus críticos. Se justiça houvesse, esta interpretação suscitaria mais falatório. 


Colocando de parte os nossos sentimentos acerca do filme, uma coisa, penso eu, fica clara, tanto para quem odeia como para quem apreciou “Anna Karenina”: é a imensidão do génio e intelecto de Joe Wright, que demonstra aqui, ao seu quinto filme, a versatilidade e diversidade do seu arsenal de talentos enquanto realizador. Quando ameaçado com cortes no orçamento, permitir-se a si mesmo criar do nada esta ideia tão absurda e louca quanto potencialmente interessante está ao alcance de muito poucos. Safar-se já era um êxito; fazê-lo da forma como o faz, com aquele que é para mim e até agora, o seu melhor filme, é merecedor de um fortíssimo aplauso.



Nota Final:
B/B+

Informação Adicional:
Realizador: Joe Wright
Argumento: Tom Stoppard
Elenco: Keira Knightley, Matthew MacFayden, Jude Law, Kelly MacDonald, Alicia Vikander, Domnhall Gleeson, Aaron Johnson-Wood, Olivia Williams, Ruth Wilson, Emily Watson
Fotografia: Seamus MacGarvey
Música: Dario Marianelli