Dial P for Popcorn: THE TOWN (2010)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

THE TOWN (2010)


"You grew up right here, same rules that I did."


Três anos depois da sua estreia como realizador ("Gone Baby Gone"), Ben Affleck volta à sua Boston para provar que não só é um dos melhores realizadores em crescimento em Hollywood, como também é um actor sólido, sério e, quando bem seleccionado para um papel, eficaz.

"The Town" denota sobretudo esse crescimento enquanto realizador. É um filme mais maduro, mais sério, mais concretizado. Contudo, perde um pouco em liberdade e energia em relação ao filme anterior de Affleck. É mais sombrio, mais contraído, mais limitado por regras. Claro que isto também se deve ao facto de ser uma adaptação de um romance policial ("Prince of Thieves" de Chuck Hogan) sobre a cultura e as regras e o protocolo instaurados no mundo do crime.



O filme surpreendeu-me imenso pela positiva e posso até dizer que foi dos filmes que mais gozo me deu ver este ano. No entanto, é um filme longe da perfeição. Comete, na minha opinião, três erros capitais, que me impedem de lhe dar melhor nota, não obstante todo o entretenimento que me proporcionou. O primeiro, já o referi, parece muito mais limitado que o seu predecessor na filmografia de Affleck. O segundo é o diálogo. Grandes e aborrecidos discursos, diálogo arcaico, usado, cheio de clichés, típico de um qualquer filme de acção que se pegue num videoclube. Com melhorias significativas na segunda hora, só que isto tem mais a ver com o surgimento de cenas de perseguição que dão alma e vivacidade ao filme do que propriamente com a elevação de nível do argumento. 


O terceiro é a história em si, que funciona na base de múltiplas coincidências (e espera que tudo o que nos revela dessa forma seja plausível). O filme leva-nos numa viagem pelo mundo do crime de Boston, focando-se mais precisamente em Charlestown (carinhosamente apelidada somente de "The Town" pelos habitantes da zona, ou townees, como lhes chamam lá), nos subúrbios de Boston e num grupo de quatro amigos, que desde cedo aprenderam que o crime é, naquela região, negócio de família ao qual não se pode fugir. Será por isso que essa é a zona do país que tem maior índice de criminalidade? Provavelmente. Este grupo de quatro amigos é encabeçado por dois amigos de infância, Doug MacRay (Affleck) e James "Jem" Coughlin (Renner). O que o primeiro possui de introspecção e firmeza o outro compensa com loucura e imprevisibilidade. Acompanhamos pois este grupo de criminosos em três assaltos: a um banco, onde Jem comete o erro crasso de trazer com eles uma refém, Claire (Hall); a uma carrinha de transporte de dinheiro; e a Fenway Park, estádio dos Boston Red Sox.



Descobrimos mais tarde no filme que a refém que Jem trouxe vive perto dos nossos quatro amigos, o que o deixa reticente. Doug oferece-se então para vigiar Claire, tratando de arranjar forma de estabelecer uma relação com ela. O que ele não esperava é que acabasse por gostar mesmo dela e que esta relação lhe provocasse vontade de abandonar a vida de criminoso e mudar de ares. O filme apresenta-nos depois ao chefe da máfia local, Fergie (Postlethwaite) e ao pai de Doug, Stephen (Cooper), que havia sido previamente condenado por ter assassinado dois polícias no decorrer de um assalto. A introdução destas duas personagens serve-nos como força motriz para entendermos mais a fundo a razão da vontade de mudar de Doug, perfeitamente justificada depois de conhecermos estas duas personagens. Pelo meio ainda surge a personagem de Blake Lively (famosa devido ao seu papel principal em "Gossip Girl"), a drogada e prostituta Krista, que consegue ser, na minha modesta opinião, das pessoas mais interessantes que o filme nos apresenta (se bem que o seu papel é francamente unidimensional).

Tudo isto ocorre na primeira hora de filme. Da segunda, pouco há mais a realçar excepto o ponto forte do filme: as duas extensas cenas de acção, maravilhosamente enquadradas, idealizadas, executadas e filmadas. Era mais do que óbvio que o nosso gangue não iria safar-se impune, sendo apanhado e encurralado pela equipa de FBI comandada pelo irredutível Agente Especial Frawley (Hamm).


Além das excelentes cenas de acção, as interpretações servem também muito bem o filme (os elogios que Affleck recebeu do seu elenco em relação ao seu processo de elaboração das personagens e ao seu talento comunicativo - e a qualidade, no ecrã, das interpretações - são mais uma prova do seu calibre e potencial como realizador), em particular a de Renner. O seu Jem é uma força bruta da natureza, implacável se deixado à solta. Gostei imenso de o ver completamente irreconhecível em relação ao seu sargento em "The Hurt Locker" e com um estilo tão peculiar quanto asqueroso, por vezes. A fotografia também é bastante impressionante, bem como a banda sonora que acompanha o filme.



Do final não vou revelar nada, só dizer que é extraordinariamente pouco inteligente e demonstra a qualidade ímpar que este filme - e Affleck - tenta atingir, sem infelizmente nunca o conseguir. É um bom filme, mas falha redondamente nalguns aspectos. Apesar de tudo isto, "The Town" é mais um passo na caminhada firme e acertada que Ben Affleck tem feito na transição entre actor e realizador e parece cada vez mais merecer as comparações feitas com outro grande actor-realizador norte-americano, Clint Eastwood. Esperemos que lá chegue.




Nota:
B


Informação Adicional:
Ano: 2010
Realização: Ben Affleck
Elenco: Ben Affleck, Blake Lively, Chris Cooper, Jeremy Renner, Jon Hamm, Peter Postlethwaite, Rebecca Hall
Argumento: Chuck Hogan, Ben Affleck, Peter Craig
Fotografia: Robert Elswit
Banda Sonora: Harry Gregson-Williams, David Buckley





4 comentários:

Dezito disse...

Boa crítica! Concordo contigo quando falas em coincidências durante o filme. Aí destaco aquela cena da perseguição em que aparecem os colegas num carro vindo do nada. De resto a realização não foi má e gostei sobretudo da actuação do agente da FBI.

DiogoF. disse...

Vai mais ou menos de encontro às críticas que tenho lido, que ainda assim parecem ter gostado mais do trabalho de direcção de Affleck do que tu, e menos do seu trabalho como actor e do argumento. De qualquer forma, foi a crítica mais completa que li e a que mais gostei de ler. Tenho de ver se arranjo tempo para ir ver isto.

Anónimo disse...

Il semble que vous soyez un expert dans ce domaine, vos remarques sont tres interessantes, merci.

- Daniel

Jorge Rodrigues disse...

DIOGO e DEZITO,

Obrigado pelos comentários. As cenas de acção são sem dúvida o ponto forte do filme.

E Diogo, não é que eu prefira Affleck o actor, acho é que ele desta vez deixou o elenco dele falar por si (e fez o papel dele; à la Mark Wahlberg no THE FIGHTER, interpretação low-key para deixar brilhar outros actores).


DANIEL:

Merci pour les compliments, j'espère que tu continues à visiter :)



Jorge Rodrigues