Dial P for Popcorn: A MORTE DA 7.ª ARTE (Variação Rowling)

terça-feira, 8 de março de 2011

A MORTE DA 7.ª ARTE (Variação Rowling)

"O Dial P For Popcorn tem o prazer de vos apresentar o nosso mais recente colaborador! Axel Ferreira, nosso colega e amigo, aceitou o convite para a elaboração de uma crónica mensal. Com uma visão peculiar e distinta da realidade cinematográfica, A Morte da 7.ª Arte deixa apenas uma promessa: Ninguém a poderá evitar."


A Sede do Mal

Foi neste momento, às três da manha, a fumar um cigarro, ouvindo o Oh What a World! do Rufus Wainwright ao mesmo tempo que olhava para a cara de parvo do Marco Horácio dissolvida pelo fumo, que me apercebi do que era o cinema. Apenas um somatório de luz, som, imagem e a história que compõe. Todas as formas de arte vêm apenas do imaginário, uma aproximação à realidade única de cada um. O essencial então seria a existência de algo nela, entenda-se na arte, que estivesse a alimentar aquela parte não comum e que nunca conseguiríamos alcançar sem ela. Claro que, pensando na questão dos famigerados gostos, cada um tenta alcançar aquilo que lhe é mais atraente, sendo isto muito ajudado pelo significado que damos a cada coisa. Quanto mais de nós conseguirmos enfiar no que gostarmos, quanto mais conseguirmos juntar do nosso imaginário e fantástico pessoal, melhor. Esta é a suprema dificuldade do cinema, superar a nossa própria imaginação em quase todas as suas componentes, mas claro que isso depende muito da imaginação de cada um.


Aqui olhei para o meu amigo imaginário. Estava à minha frente, sentado com as pernas cruzadas. Parecia que ouvia o que eu pensava, apesar de não ter orelhas, às vezes também falava para mim, mas também não tinha boca. Na realidade nem sequer tinha cara, a minha imaginação não chegava para tanto. ­

– É essa a magia do cinema? Superar a imaginação de cada um, existir para além daquilo que pensamos existir? – Enquanto dizia isto, o meu amigo imaginário esboçava um sorriso sem lábios.

– A magia do cinema é o que sai do pau do Daniel Radcliffe.

Aqui usei as minhas rugas de expressão que uso quando fico ligeiramente irritado. Quase me apeteceu deixar de imaginar, não fosse a minha vontade imensa de sempre discutir.

– É essa a razão de tanta gente gostar desse filme? O facto de não haver esforço? O esforço de ter que pensar e o esforço que o personagem principal não tem que fazer… A magia reduzida a não ter que saber nada para fazer seja o que for… É disso que as pessoas gostam?

– Não, as pessoas gostam do que sai da ponta do pau do Daniel Radcliffe.

– Vai-te lixar, estou farto de pessoas que só sabem provocar e criticar! Vou ver o “Touch of Evil” do Welles. A ver se acalmo o meu espírito martirizado.


Assim sim, uma bela cena num contínuo take, 4 minutos de extraordinária mestria. Aparece uma bomba depositada num carro, depois o Charlton Heston a fazer de mexicano, a sua mais que tudo não mexicana a andar na rua e ainda um vendedor de rua. A certo momento parece que até atravessam a fronteira e momentos depois explode o carro. Ah, um filme Noir de Welles, nem mais… E não é que aparece o próprio Welles? Gordo e manco, um polícia à moda antiga. A intriga parece instalar-se bem, o Heston é um polícia mexicano de renome que por acaso assistiu ao acidente que decorreu do lado Americano da fronteira. O Welles não gosta do Heston porque veio meter o bedelho onde não manda, só que toda a gente lhe diz que tem de tratar bem o Heston porque é bonito e ele é feio, ou razão parecida. O Welles vai logo meter o bedelho em todo o lado e mais algum no México. Atiram ácido ao Heston e depois descobre-se que a perna manca do Welles lhe diz quem é o criminoso. Identificado o criminoso correm todos para a casa do tipo.

– E é esse o Voldemort?

Parece que não é ele, o homem marcado pelo instinto da perna do polícia fala como um maricas atrapalhado, mas não deve ser culpado. Momentos depois encontram provas na casa do criminoso, o Heston fareja logo que aquilo foi incriminação do Welles.

– Então é esse o Voldemort?

Não sei se é mesmo incriminação, mas agora parece. Então, enquanto o Heston investiga os casos corruptamente resolvidos do polícia manco, um bando de mafiosos mexicanos irrita a mulher não mexicana do Heston. O Welles fica deprimido por causa da sua reputação prestes a ser manchada e começa a beber a convite de um idiota mafioso mexicano, o coitado do manco era alcoólico. A bela mulher não mexicana é raptada e aqui percebemos que há marosca do Welles porque ele surge a falar com o chefe mafioso mexicano. Este chefe é o bandido estúpido de serviço no filme. Então o Welles mata-o, não sei se é por ser o tipo mais estúpido do filme e o Welles realizador não o querer mais por lá. Se foi por isso merecia. De seguida, o Welles incrimina a mulher do Heston por abuso de drogas, mas ela não é formalmente acusada de nada, era só para manchar a reputação do Heston e ilibar-se a ele próprio.

– Então sempre é ele o Voldemort… Sabes que estes filmes armados em intelectual são iguais aos outros, com mais ou menos jeito na arte.

O Heston decide limpar o nome e tenta arranjar uma gravação onde o Welles confesse. A cena acaba com o Welles morto, o amigo do Welles morto e o Heston todo contente com a não mexicana. Depois surge o procurador que diz que afinal o gajo que o Welles incriminou era culpado e que ele só plantava provas quando não as havia. E aparece a Marlene Dietrich a dizer qualquer coisa espectacular… Parece que o homem afinal não era tão mau, bêbado é que não era assim tão espectacular. O Welles era, afinal, um polícia que sempre trabalhou para o mesmo que o Heston.

– Então o Heston só arranjou com que matassem o tipo que prendia os maus da fita? Então quem raio era o Voldemort?

– Ó Imaginário, parece que não era nenhum, ora f…

PS: Só quero expressar a minha tremenda admiração por Welles e este filme, e que este texto não representa uma crítica ao mesmo, porque me acredito incapaz de fazer uma. Em segunda nota só queria corrigir a errata do último mês em que disse que o Yi-Yi era um filme Japonês. É que afinal foi feito em Taiwan, e o realizador também é de lá, e como o filme não foi feito no tempo das suásticas inclinadas, na realidade é chinês. Podia ter percebido isso no filme porque toda a gente falava Mandarim, mas o meu Mandarim não é muito fluente. Peço-vos para da próxima vez não terem vergonha e que, por favor, me corrijam prontamente.


Axel Ferreira

3 comentários:

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Touch of Evil é o melhor filme de Welles, melhor ainda que Citizen Kane.

Jorge Rodrigues disse...

Torcendo um bocado o nariz à dicotomia TOUCH OF EVIL/CITIZEN KANE que O Homem referiu acima, porque acho difícil fazer a escolha entre os dois - eu pessoalmente prefiro o segundo mas a verdade é que os dois são absolutos colossos no seu próprio direito -, admiro imenso esta tua nova crítica, Axel.

Directa, frontal (tenho que admitir que achava que íamos ter mais gente a reclamar por causa do HARRY POTTER mas vá lá, temos leitores inteligentes), incisiva e informativa, penso que só nos proporciona mais expectativa com o que vais trazer numa próxima edição ;)

Fico a aguardar :) Cumprimentos!

Axel disse...

Agradeço os elogios Jorge. E fico mesmo contente por não escrever só para meia dúzia de homens avarentos e resignados e que a revolta não é só minha. Espero surpreender com a próxima.

Enquanto à discusssão sobre o melhor filme de Welles, eu não quero mesmo entrar por aí porque tinha de meter ao barulho a fase de em terras europeias e nunca mais saía daqui.