"I've seen bickering and family quarrels and mysterious trips at night, and knives and saws and ropes, and now since last evening, not a sign of the wife. How do you explain that?"
Naquele que é o meu filme favorito de Hitchcock, Rear Window, a personagem interpretada por James Stewart (uma das mais importantes estrelas da história do cinema) transformou-se num dos grandes cultos da sétima arte.
L.B. 'Jeff' Jeffries é um fotógrafo que, devido a uma lesão, se vê forçado a ficar em casa preso a uma cadeira de rodas. Para ocupar os seus dias decide aproveitar para observar os seus vizinhos: os seus hábitos, as suas rotinas, os seus passatempos, os seus gostos.
Com o desenrolar do filme, L.B. 'Jeff' Jeffries percebe que algo d e errado se está a passar no seu bairro. Algo de grave poderá acontecer e o único a aperceber-se disso é ele, preso a uma cadeira de rodas, fechado no seu apartamento, impotente perante tudo.
A forma como Hitchcock cria um conjunto de acasos e acontecimentos, os trabalha, associa e mistura de forma a criar um complexo crime que é resolvido graças à mestria de uma personagem que reflecte não só as grandiosas qualidades do grande criador que foi Hitchcock mas também as do grande interprete James Stewart, são uma prova cabal da importância que Rear Window e L.B. 'Jeff' Jeffries tiveram para a história do cinema.
"They'll pump you full of Viagra. Make you fuck a dog!"
Há muito tempo que não ria com tanta vontade. Four Lions é absolutamente desconcertante, e ao conseguir ridicularizar alguns dos mais obscuros tabus sociais de uma forma tão simples e criativa, transformou-se, naturalmente, num dos melhores filmes de 2010.
O filme não é mais do que uma inteligente sátira sobre os ataques suicídas aos países do ocidente, desenvolvendo a sua história a partir das reuniões de um grupo de cinco amigos, liderado por Omar (claramente o mais perspicaz do gang) que começa por viajar juntamente com Waj até ao Afeganistão, local de onde fogem depois de um conjunto de problemas tão caricatos quanto ridículos. É impossível ficar indiferente.
Enquanto os dois estão ausentes de Inglaterra, Barry recruta Hassan, um promissor revolucionário, que simula um ataque suicida ao som de um RAP de Tupac num dos pontos altos do filme. Juntamente com Fessal, os três começam os preparativos para a grande missão das suas vidas.
Com o regresso de Omar e Waj, o grupo começa a delinear a estratégica a seguir e o alvo a atacar. Cedo se percebe que o plano tem tudo para correr mal mas, fintando os inúmeros contra-tempos que os próprios "bombistas" conseguem criar, o grupo chega, mal e porcamente, à última etapa da sua jornada. E a um passo da grande decisão, qual o caminho que estes fiéis revolucionários irão tomar? A resposta fica para o leitor descobrir.
É fantástico. É humor do mais negro e ácido que vi em 2010. Christopher Morris, vencedor do BAFTA em 2010 para "Outstanding Debut by a British Writer, Director or Producer" vai andar debaixo do meu olho. O do seu também, espero.
Nota Final: A-
Trailer:
Informação Adicional: Realização: Christopher Morris Argumento: Christopher Morris Ano: 2010 Duração: 97 minutos
Aparentemente, segundo os Agentes do Destino, não é bem assim. THE ADJUSTMENT BUREAU é a mais recente adaptação cinematográfica do legado de Philip K. Dick (baseado no seu conto "The Adjustment Team"), chegando-nos às mãos desta vez por George Nolfi, o argumentista de "Bourne Ultimatum". Narra a história do romance entre David Norris (Matt Damon), um político jovem com má fama que vê a sua campanha para o senado norte-americano ruir ao mesmo tempo que encontra o amor da sua vida, Elise Selas (Emily Blunt), uma bela e talentosa bailarina com um futuro risonho pela frente. Este romance, contudo, assume proporções de thriller de ficção científica quando entram em acção os Agentes do Destino, um grupo misterioso de homens cuja função é monitorizar certas pessoas a toda a hora e fazer pequenos "ajustes" na sua vida, para que esta decorra segundo o plano que nos é destinado. O que esta organização não esperava, no entanto, era que David e Elise se revoltassem contra o plano estabelecido e buscassem, contra tudo e contra tudos, ficar juntos.
Um filme agradável, com dose moderada de suspense e romance, como se quer num filme mainstream de qualidade, engrandecido pela enorme química entre Matt Damon e Emily Blunt (já nem se fala do talento dos dois actores pois esse nem se põe em causa) e pela presença ameaçadora de John Slattery e Terrence Stamp, tem em Anthony Mackie a verdadeira estrela. Desempenhando o seu papel com total eficácia e capacidade, ainda tem tempo para lhe acrescentar uma profundidade emocional e ambiguidade que certamente não estava no argumento. E digo isto porque o argumento é a grande falha do filme. Tenta torná-lo naquilo que não é, por vezes, tenta inventar explicações e associações com base na religião que não eram de todo necessárias e acaba por retirar potência a algumas cenas que mereciam mais rasgo e risco por parte do argumentista e também realizador. Com alguém mais reputado e experienciado, esta ideia genial de Dick poderia ter sido melhor explorada e extrapolada. O risco poderia valer a pena; ou então talvez não. A fotografia de John Toll, impressionante, sai beneficiada pelo realismo, pois todas as cenas foram filmadas mesmo em Nova Iorque, o que se torna divertido de observar por entre o abrir e fechar de portas.
Inesperadamente, o que mais me fascinou no filme, tirando a realização muito cuidada de alguém que ainda se está a iniciar nestas andanças - e que promete - foi a banda sonora brilhante de Thomas Newman. Alguém que já escutou os seus trechos musicais para "American Beauty", "Wall-E" e "Angels in America" vai ficar deliciado com alguns sons que estas partilham com esta banda sonora. Uma sonoridade celestial, pura e bela, que complementa tão bem a acção no ecrã (um bom exemplo aqui).
Nada muito cerebral, complexo ou sofisticado, uma abordagem interessante às temáticas e ao estilo de cinema de suspense e ficção científica de hoje, este é sobretudo um bom filme, que proporciona entretenimento de boa qualidade. Inspiracional e triunfante q.b., THE ADJUSTMENT BUREAU passa-nos uma curiosa mensagem sobre a imprevisibilidade, o destino, a perseverança perante a inevitabilidade e o valor do amor sobre todas as outras coisas que a vida tem para oferecer.
Nota Final:
B/B+
Trailer:
Informação Adicional:
Realização: George Nolfi
Argumento: George Nolfi
Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, Terrence Stamp, John Slattery
É muito bom. Haevnen é uma maravilhosa metáfora. Uma criação pensada com requinte, pormenor e inteligência.
Christian é novo na escola. Vindo de Londres, ocupa o lugar vago na secretária onde está sentado Elias. "O Rato", como é gozado pelos mais velhos da escola, fica feliz por finalmente ter alguém com quem conversar. Ao ver a forma corajosa como Christian enfrenta Signe, quando este o tenta intimidar como o fazia diariamente com Elias, este automaticamente o toma como seu ídolo, e faz por tudo para o acompanhar.
Ao mesmo tempo, vamos conhecendo Anton, pai de Elias, que trabalha como médico voluntário no coração de África, onde as injustiças, os maus-tratos e a violência são um constante. Numa das visitas a casa, Anton (que se encontra divorciado da mãe de Elias), é agredido por um desconhecido após ter separado o seu filho mais novo de uma briga com um garoto da mesma idade.
A experiência obtida pela sua actividade em África, faz com que Anton se resigne e explique aos seus filhos que a violência e a agressão nunca são a solução. No entanto, Christian, que presencia a agressão, está disposto a fazer justiça pelas próprias mãos. E convence Elias a um acto louco.
Ao mesmo tempo que Christian e Elias vão criando o seu próprio plano, Anton é confrontado, em África, com a necessidade de tratar o vilão da zona onde trabalha, cujo fetiche é retirar a sangue frio os bebés das mulheres grávidas.
Com tantos acontecimentos, Anton pergunta-se a si mesmo de que lado está a justiça. O que é realmente correcto. A justiça popular é sempre uma solução controversa, muitas vezes socialmente reprovável, mas quase sempre um acto de desespero, perante a inoperância de quem realmente deve impôr a justiça e a ordem. Um riquíssimo argumento, num filme surpreendente.
O prazer de escrever sobre um grande filme é fantástico. O gozo de escolher as melhores palavras, de tentar não esquecer nenhum pormenor. Felizmente, depois da desilusão que Hereafter me deu ontem à noite, hoje pude recuperar o ânimo com um grande filme. E felizmente, desta vez acertei.
Já há algum tempo que The Man from Nowhere me intrigava. Em primeiro lugar, a sua capa. Em segundo lugar, a sua origem (Continuo a acreditar que, no drama puro e duro, ninguém é melhor do que os asiáticos. Nem existe comparação possível, sequer.). Em terceiro lugar, esta imagem:
Há imagens que valem mais do que umas quantas palavras e, neste caso particular, quase que conseguimos um resumo perfeito daquilo que é The Man from Nowhere: A história de um homem letal, ferido no seu orgulho, à procura de vingança. Um homem que faz justiça pelas próprias mãos, sem receio das consequências. E a sua pose nesta imagem é o espelho daquilo que Tae-Sik Cha (Bin Won) personifica durante todo o filme, da intensidade da sua personagem, do carisma que conseguiu colocar em toda a história.
The Man from Nowhere, um filme sobre o tráfico de droga e órgãos no Coreia do Sul, é quase que uma resposta que a Ásia dá ao muito bem sucedido "Taken" que em 2008 surpreendeu muitos dos fans dos thrillers de acção. Neste caso, Tae-Sik Cha é um agente dos serviços secretos, reformado desde o assassínio da sua mulher, que sofre em silêncio a sua ausência, trabalhando numa loja de penhoras. Com o passar dos anos afeiçoa-se a So Mi, uma jovem rapariga de oito anos, filha de uma prostituta que vive ao lado da sua loja.
Quando So Mi e a sua mãe são raptadas pelo bando dos irmãos Man-Sik e Jong-Suk, Tae-Sik Cha mostra as suas garras. Numa luta incansável contra um verdadeiro império de armas e assassinos sem escrúpulos, Tae-Sik Cha foge da polícia ao mesmo tempo que persegue os responsáveis pelo rapto das suas vizinhas.
Um thriller de cortar a respiração, intenso, cruel e dramático. The Man from Nowhere é tudo aquilo que eu venero no cinema asiático. Um filme obrigatório, que fará as delicias de admiradores e simpatizantes do cinema do oriente. E não só!
Nota Final: B+
Trailer:
Informação Adicional: Realização: Jeong-beom Lee Argumento: Jeong-beom Lee Ano: 2010 Duração: 119 minutos
Bem-vindos à primeira edição dos Dial A For Awards, a cerimónia de prémios de cinema do nosso blogue, Dial P For Popcorn. Iremos revelar, categoria a categoria, os nossos seis nomeados e três vencedores entre aqueles que foram, para nós, os melhores filmes de 2010.
Depois de alguns prémios em categorias menores, vamos a uma das categorias principais - Melhor Actor Secundário. E o que seria de um filme sem grandes actores e actrizes secundários? São eles que roubam cenas, são eles que acrescentam aquele je ne sais quoi especial a um bom filme e o tornam grande, são eles que dão profundidade e ressonância a muitas interpretações dos protagonistas. Por tudo isto, um bom actor secundário é essencial. Assim sendo, cá estão os que melhor cumprem, para mim, estes requisitos em 2010, portanto os meus seis nomeados para Melhor Actor Secundário:
Christian Bale, THE FIGHTER - #1
Michael Fassbender, FISH TANK
Andrew Garfield, NEVER LET ME GO (também por: THE SOCIAL NETWORK) - #3
John Hawkes, WINTER'S BONE
Ben Mendelsohn, ANIMAL KINGDOM
Mark Ruffalo, THE KIDS ARE ALL RIGHT - #2
Apesar do ano bastante frutífero em exemplos impressionantes do trabalho de actores secundários, foi-me relativamente fácil compor esta lista de nomeados, uma vez que não consigo dissociar o seu trabalho do sucesso do filme comigo. Não dá para imaginar "The Fighter" sem CHRISTIAN BALE. Sem a sua energia, sem a sua contagiante habilidade de se perder na personagem, sem a sua intensidade e abordagem pessoal àquilo que ele pensa que Dicky Ecklund é, como pessoa, sem perder a sua própria identidade como actor. ANDREW GARFIELD poderia estar aqui por qualquer um dos dois filmes referidos. Em "The Social Network" ele rouba cena atrás de cena, fazendo-nos sentir compaixão e pena por um rapaz honesto que é atropelado pelo sucesso do melhor amigo. Contudo, é em "Never Let Me Go" que Garfield impressiona mais. Num filme depressivo e melancólico, Garfield é perfeito, arrancando-nos o coração nas trágicas cenas que lhe condenam o seu fim. Duas personagens tão diferentes e tão parecidas, dois rapazes ingénuos e sonhadores traídos pelo destino e pelo falhanço. BEN MENDELSOHN, como 'Pope' Cody em "Animal Kingdom", é assustador, ameaçador, possessivo e arrogante, além de ser difícil de ler, fazendo-nos temer sempre pelas pessoas que se encontravam no seu caminho. Sempre subtil e low-profile, mas uma ameaça constante. MICHAEL FASSBENDER foi a descoberta do ano (não para mim e alguns outros que viram "Hunger") e em "Fish Tank", através de poucas falas mas com muita profundidade emocional, ele presenteia-nos com mais uma enorme interpretação. Não precisamos de muito para perceber o que move Connor e a forma como ele vê, a ele e aos outros, no mundo. JOHN HAWKES em "Winter's Bone", como Teardrop, surpreendeu-me - e penso que surpreendeu todos - com a sua versatilidade. É impossível confiar em Teardrop: ele é dotado de uma falsa ingenuidade e ambiguidade (uma ameaça aparente, portanto) que torna difícil entendê-lo. Será ele mesmo nosso amigo? Cumprirá ele aquilo que disse? Ele surpreende sempre. Finalmente, falta-nos falar de MARK RUFFALO e do seu Paul em "The Kids Are All Right", um verdadeiro testemunho à qualidade e talento de um actor em tornar uma interpretação complexa em algo simples, divertido, energético, bem-humorado e sem se esforçar muito. O papel não é fácil, mas a forma como Ruffalo o eleva com grande sensibilidade, destrinçando bem cada laço e relação que define, como varia de humor, entusiasmo e excentricidade. Cair de pára-quedas numa família tão fora do convencional deve ser interessante. Paul foi um mestre em lidar com a situação. Só quando ele quis retirar mais do que devia deste novo elemento da família é que as suas ridículas ambições colidiram com a fria realidade. Brilhante.
Passo agora a palavra a vocês: quais os vossos actores secundários preferidos do ano passado?
"I'll show you fear. [...] It would mean that nobody wants me and everything I had done in life didn't work."
Um dos melhores documentários que já vi sobre a vida em Hollywood, sobre a vida no show business, JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK (vencedor de um prémio no Festival de Sundance) foi dos filmes que mais me surpreendeu na minha vida na sua capacidade de ser profundo, inteligente e incisivo nas críticas a tudo o que os holofotes da fama nos trazem.
Joan Rivers, uma comediante lendária que infelizmente nos últimos tempos tem mais reconhecimento pelas suas múltiplas cirurgias plásticas e pelos programas de crítica ácida que faz para o canal E!, abre as portas a esta equipa e deixa que a filmem durante aproximadamente um ano da sua vida. Ao fazê-lo e ao expôr-se tão genuinamente, a figura que todos conhecemos como Joan Rivers desaparece e a verdadeira persona por detrás da comediante aparece: uma mulher naturalmente engraçada, bem-humorada e divertida, que luta com todas as suas forças para, mais de cinquenta anos depois, continuar a manter-se relevante. Aos setenta e cinco anos, Rivers mantém as suas qualidades cómicas intactas, com um humor de fazer chorar a rir o mais sério dos indivíduos. Ela fala de tudo, não fugindo a nenhum tópico mais pesaroso e até abordando vários dos temas que a tornaram infame, da cirurgia plástica à relação com a filha Melissa Rivers, do seu conflituoso afastamento de Johnny Carson que a lançou para a celebridade até às discussões com o seu ex-marido. Não há temas polémicos, não há tópicos proibidos: de fria e cruel a dócil e compassiva, Rivers não foge a nada e fala de tudo.
A compensar a vertente mais engraçada que os múltiplos espectáculos e sketches que nos permitem analisar e concluir o quão fascinante é Rivers no seu trabalho, naquilo que faz melhor, temos uma parte mais profunda, mais melancólica do filme, que é indubitavelmente aquilo que mais me chocou, mais me apaixonou, mais me emocionou. De uma forma quase demasiadamente pessoal e confidente, vemos por outro prisma esta mulher e descobrimos o que a move, o que a aborrece, o que a destrói por dentro. A compaixão e pena que vão sentir pela septuagenária não é descritível apenas por palavras; a forma como as lágrimas lhe vêm aos olhos ao folhear a sua agenda cheia de páginas vazias, brancas, é de destroçar o coração. As suas confissões, de que está demasiado velha, de que não tem capacidade para aguentar tanto ódio, tanta má fama na indústria, amolece-nos e toca-nos. Joan Rivers é um caso curiosíssimo numa indústria que tanto se preocupa com o que pensa, com o que diz, com o que faz.
Ela não tem medo, ela não tem problema em se rebaixar, não lhe faz confusão dizer o que pensa e sente, mesmo que isso magoe algumas pessoas. Ser assim tão frontal, tão confiante e conseguir pegar nisso e ser em simultâneo enormemente divertida terão sido, provavelmente, as características que Carson viu naquela rapariga bonita de vinte anos que ele decidiu promover no seu programa. Mal sabia ele o "monstro" da televisão e da comédia que estaria prestes a lançar no mundo. Eu acredito que, lá dentro, Joan Rivers sabia que ia ser assim. Que ela estava destinada a suceder. E quem a conhece desde sempre deve ter pensado o mesmo.
Há pessoas que são famosas para sempre. Há pessoas que têm os seus quinze minutos de fama. E depois há Joan Rivers. Joan Rivers é famosa para sempre, sim, mas isso é devido aos milhares de quinze minutos de fama de que tem usufruído, por nunca voltar as costas a um desafio, por nunca dizer não a nada. Joan Rivers sabe o que é preciso para se manter no negócio e sabe o que é necessário, por vezes, uma pessoa humilhar-se para que lhe voltem a dar respeito. JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK é fascinante, é inspirador, eleva-nos ao mostrar ultimamente a capacidade de superação de um ser humano corajoso que teima em não aceitar derrota perante uma indústria que a quer ver enterrada. Podem tentar, mas Joan Rivers não há-de ir sem ir a combate. E assegurem-se: vai ser difícil nocauteá-la.
Ver Hereafter foi um dos maiores sacrifícios cinematográficos que fiz em nome do blogue. É complicado falar-vos bem do que acabei de ver. Muito complicado, mesmo.
Clint Eastwood pôs a pata na poça. E enterrou-a tão fundo que J. Edgar, o seu próximo filme (previsto para 2012), tem obrigatoriamente que recuperar este grande realizador para o patamar que tanto merece e onde, por mérito próprio, conseguiu um confortável lugar. Eastwood é um dos mais regulares realizadores da actualidade. Mas, como errar é humano, Hereafter é a prova de que Clint Eastwood também se engana, também erra. E tem todo esse direito.
Hereafteré um filme sobre os medium e as experiências de quase-morte. George Lonegan (Matt Damon) é um operário, que após sofrer uma grave infecção na sua infância e depois de ter sido sujeito a uma longa cirurgia durante a qual diversas complicações obrigaram os médicos a reanimá-lo por inúmeras vezes, apercebe-se de uma invulgar capacidade de observar e conversar com as pessoas que já se encontram mortas. Esta comunicação privilegiada transporta-o para um sucesso inesperado e, após enriquecer com o seu "dom", decide largar tudo e viver uma pacata vida como operário fabril.
Marie Lelay (Cécile De France), uma famosa jornalista francesa, encontra-se no meio de um tsunami numa paradisíaca ilha do pacífico. Depois de ser arrastada pelas águas é encontrada por dois locais que a tentam reanimar, com sucesso. Durante o período em que está morta, Marie vive uma experiência única e visita um espaço desconhecido. Meses mais tarde percebe que teve uma experiência de quase morte e decide então colocar a sua carreira em jogo e falar abertamente ao mundo, usando a sua elevada reputação, para dar a conhecer um mundo completamente obscuro para os comuns mortais.
Marcus e Jason são dois irmãos gémeos, cúmplices e unidos que, mesmo com uma mãe drogada, ausente e irresponsável, conseguem sobreviver e ser felizes no meio da infeliz desgraça à qual foram parar. Subitamente, Jason (o mais velho e responsável dos dois irmãos) morre vítima de uma atropelamento. Sozinho no mundo, Marcus procura o seu irmão. Procura uma mensagem, procura um modo de tentar encontrar Jason.
E pronto, Hereafter é um filme sem nexo nenhum. Três histórias, bastante desinteressantes, que no meio de um conjunto de acasos mal arranjados, acabam por se encontrar. Desde bem cedo se percebe qual o propósito do filme. Clint Eastwood não precisava era de duas horas para chegar lá. Dois minutos bastavam.
British TV é nova crónica mensal do Dial P for Popcorn. Tem como objectivo dar a conhecer séries britânicas, com a qualidade característica dos ingleses, local de inspiração e (fraco) plágio da Televisão Americana.
MISFITS
Como incondicional Fã da televisão britânica, e uma vez que o Jorge nos dá a conhecer uma enorme variedade de séries americanas, considerei importante, para o leitor, a criação de uma crónica mensal sobre séries britânicas. Mensal, para que o leitor tenha tempo de digerir e analisar cada uma das séries sobre as quais vou falar, espero que British TV se torne uma crónica do agrado de quem visita o blogue, permitindo a divulgação de séries de grande qualidade que, infelizmente, pouca divulgação têm em Portugal.
Esta não é a primeira vez que vos falo sobre a minha admiração pelos ingleses. Merlin, Black Adder, Only Fools and Horses e The Inbetweenersforam já por mim analisadas e aconselhadas. Qualquer uma delas é uma grande série, todas elas divertidas e originais.
E começo por uma escolha controversa. Uma escolha que fará torcer o nariz de muitos dos que estão agora a ler esta crónica. É uma escolha arriscada, pelo conteúdo (aparentemente) barato e escandalosamente explorado das histórias de super-heróis.
Sim, à primeira vista MISFITS é mais uma série sobre super-herois. Cinco miudos, aparentemente "normais", estão no sítio errado, à hora errada. Mas, a aparente banalidade de mais uma série sobre super-heróis, começa a ser posta em causa pelo peculiar facto de Nathan, Kelly, Simon, Curtis e Alisha se encontrarem a cumprir trabalho comunitário por distúrbios na sociedade: Roubos, drogas, vandalismo. Cinco jovens, sem uma beleza extrema e um carimbo de sex-symbols, numa representação adequada daquilo que é a sociedade moderna.
Arruaceiros, mal-educados, insurretos, são surpreendidos pela queda de um trovão que ao cair sobre eles altera radicalmente as suas vidas. Mas, em MISFITS os super-heróis não são carregados da surrealidade a que séries como Heroes nos habitou. Tudo acontece com calma, com naturalidade. Os poderes, embora irreais, são todos eles criados e adequados a cada uma das personalidades, como uma extensão dos desejos mais profundos das personagens.
Mas os poderes e a acção foi o que menos me cativou nesta série. MISFITS é diferente pelo seu conteúdo. Pelo argumento fantástico de cada episódio, pelo sublime humor negro, pela naturalidade com que temas controversos como a gravidez, o sexo, a homossexualidade são abordados. Pela forma como as cenas são montadas e editadas. Tudo com uma carga de humor intensa, diversificada e inteligentíssima.
A juntar a isto, temos uma banda sonora fantástica. Possivelmente a melhor que vi até hoje numa série britânica. Variada, utiliza desde b-sides dos The Rapture, até Echo and the Bunnymen, Joy Division, LCD Soundsystem, Hot Chip, Klaxons, Metronomy, Kasabian, Justice, Adele, Damien Rice, Blur... Enfim, uma variedade enorme que enriquece a série a torna ainda mais especial.
Por fim, uma referência à grande estrela da série. Um protagonismo conseguido, não pela força do argumento, mas pela força de uma personalidade artística fantástica, um talento natural e uma piada espontânea: Robert Sheehan vai, naturalmente, ser uma grande estrela do cinema e da televisão. Nathan, a personagem que ele protagoniza é, sem dúvidas, a mais carismática de toda a série e aquela que mais empatia criará com o leitor.
Com seis episódios em cada temporada, num total de duas (a terceira temporada deverá chegar no final deste ano), MISFITS foi o vencedor do BAFTA de 2010 para Melhor Série de Drama. A juntar a todo o meu entusiasmo, MISFITS é a garantia de uma série divertida, irreverente, original e peculiar. O leitor não se arrependerá de a conhecer.
"O Dial P For Popcorn tem o prazer de vos apresentar o nosso mais recente colaborador! Axel Ferreira, nosso colega e amigo, aceitou o convite para a elaboração de uma crónica mensal. Com uma visão peculiar e distinta da realidade cinematográfica, A Morte da 7.ª Arte deixa apenas uma promessa: Ninguém a poderá evitar."
A Sede do Mal
Foi neste momento, às três da manha, a fumar um cigarro, ouvindo o Oh What a World! do Rufus Wainwright ao mesmo tempo que olhava para a cara de parvo do Marco Horácio dissolvida pelo fumo, que me apercebi do que era o cinema. Apenas um somatório de luz, som, imagem e a história que compõe. Todas as formas de arte vêm apenas do imaginário, uma aproximação à realidade única de cada um. O essencial então seria a existência de algo nela, entenda-se na arte, que estivesse a alimentar aquela parte não comum e que nunca conseguiríamos alcançar sem ela. Claro que, pensando na questão dos famigerados gostos, cada um tenta alcançar aquilo que lhe é mais atraente, sendo isto muito ajudado pelo significado que damos a cada coisa. Quanto mais de nós conseguirmos enfiar no que gostarmos, quanto mais conseguirmos juntar do nosso imaginário e fantástico pessoal, melhor. Esta é a suprema dificuldade do cinema, superar a nossa própria imaginação em quase todas as suas componentes, mas claro que isso depende muito da imaginação de cada um.
Aqui olhei para o meu amigo imaginário. Estava à minha frente, sentado com as pernas cruzadas. Parecia que ouvia o que eu pensava, apesar de não ter orelhas, às vezes também falava para mim, mas também não tinha boca. Na realidade nem sequer tinha cara, a minha imaginação não chegava para tanto.
– É essa a magia do cinema? Superar a imaginação de cada um, existir para além daquilo que pensamos existir? – Enquanto dizia isto, o meu amigo imaginário esboçava um sorriso sem lábios.
– A magia do cinema é o que sai do pau do Daniel Radcliffe.
Aqui usei as minhas rugas de expressão que uso quando fico ligeiramente irritado. Quase me apeteceu deixar de imaginar, não fosse a minha vontade imensa de sempre discutir.
– É essa a razão de tanta gente gostar desse filme? O facto de não haver esforço? O esforço de ter que pensar e o esforço que o personagem principal não tem que fazer… A magia reduzida a não ter que saber nada para fazer seja o que for… É disso que as pessoas gostam?
– Não, as pessoas gostam do que sai da ponta do pau do Daniel Radcliffe.
– Vai-te lixar, estou farto de pessoas que só sabem provocar e criticar! Vou ver o “Touch of Evil” do Welles. A ver se acalmo o meu espírito martirizado.
Assim sim, uma bela cena num contínuo take, 4 minutos de extraordinária mestria. Aparece uma bomba depositada num carro, depois o Charlton Heston a fazer de mexicano, a sua mais que tudo não mexicana a andar na rua e ainda um vendedor de rua. A certo momento parece que até atravessam a fronteira e momentos depois explode o carro. Ah, um filme Noir de Welles, nem mais… E não é que aparece o próprio Welles? Gordo e manco, um polícia à moda antiga. A intriga parece instalar-se bem, o Heston é um polícia mexicano de renome que por acaso assistiu ao acidente que decorreu do lado Americano da fronteira. O Welles não gosta do Heston porque veio meter o bedelho onde não manda, só que toda a gente lhe diz que tem de tratar bem o Heston porque é bonito e ele é feio, ou razão parecida. O Welles vai logo meter o bedelho em todo o lado e mais algum no México. Atiram ácido ao Heston e depois descobre-se que a perna manca do Welles lhe diz quem é o criminoso. Identificado o criminoso correm todos para a casa do tipo.
– E é esse o Voldemort?
Parece que não é ele, o homem marcado pelo instinto da perna do polícia fala como um maricas atrapalhado, mas não deve ser culpado. Momentos depois encontram provas na casa do criminoso, o Heston fareja logo que aquilo foi incriminação do Welles.
– Então é esse o Voldemort?
Não sei se é mesmo incriminação, mas agora parece. Então, enquanto o Heston investiga os casos corruptamente resolvidos do polícia manco, um bando de mafiosos mexicanos irrita a mulher não mexicana do Heston. O Welles fica deprimido por causa da sua reputação prestes a ser manchada e começa a beber a convite de um idiota mafioso mexicano, o coitado do manco era alcoólico. A bela mulher não mexicana é raptada e aqui percebemos que há marosca do Welles porque ele surge a falar com o chefe mafioso mexicano. Este chefe é o bandido estúpido de serviço no filme. Então o Welles mata-o, não sei se é por ser o tipo mais estúpido do filme e o Welles realizador não o querer mais por lá. Se foi por isso merecia. De seguida, o Welles incrimina a mulher do Heston por abuso de drogas, mas ela não é formalmente acusada de nada, era só para manchar a reputação do Heston e ilibar-se a ele próprio.
– Então sempre é ele o Voldemort… Sabes que estes filmes armados em intelectual são iguais aos outros, com mais ou menos jeito na arte.
O Heston decide limpar o nome e tenta arranjar uma gravação onde o Welles confesse. A cena acaba com o Welles morto, o amigo do Welles morto e o Heston todo contente com a não mexicana. Depois surge o procurador que diz que afinal o gajo que o Welles incriminou era culpado e que ele só plantava provas quando não as havia. E aparece a Marlene Dietrich a dizer qualquer coisa espectacular… Parece que o homem afinal não era tão mau, bêbado é que não era assim tão espectacular. O Welles era, afinal, um polícia que sempre trabalhou para o mesmo que o Heston.
– Então o Heston só arranjou com que matassem o tipo que prendia os maus da fita? Então quem raio era o Voldemort?
– Ó Imaginário, parece que não era nenhum, ora f…
PS: Só quero expressar a minha tremenda admiração por Welles e este filme, e que este texto não representa uma crítica ao mesmo, porque me acredito incapaz de fazer uma. Em segunda nota só queria corrigir a errata do último mês em que disse que o Yi-Yi era um filme Japonês. É que afinal foi feito em Taiwan, e o realizador também é de lá, e como o filme não foi feito no tempo das suásticas inclinadas, na realidade é chinês. Podia ter percebido isso no filme porque toda a gente falava Mandarim, mas o meu Mandarim não é muito fluente. Peço-vos para da próxima vez não terem vergonha e que, por favor, me corrijam prontamente.