Dial P for Popcorn: WEST SIDE STORY (1961)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

WEST SIDE STORY (1961)

"All the world is only you and me."

Por várias vezes, a sétima arte declarou a morte do seu género mais rico e mais prestigiante, o musical. Depois de "Wizard of Oz" ter encantado milhões e "Singin' in the Rain" nos ter dado vontade de sair à rua e cantar enquanto gotas frias de chuva nos caem em cima, alguns falhanços de bilheteira como "Oklahoma!" ou "South Pacific" ou mesmo os cintilantes "A Star is Born" de Cukor e "Gigi" de Minnelli - hoje em dia considerados dos melhores musicais de sempre, galardoados com várias nomeações pela Academia mas ignorados na altura pelo grande público - puseram em causa o quanto o público ainda apreciava um grande espectáculo de luz, cor, música e dança. O que o cinema musical precisava, então, era de um enorme êxito cuja ressonância junto do público faria os estúdios acreditar de novo no poder da música. E eis que é assim que surge o famoso e muito premiado (vencedor de dez Óscares da Academia, só atrás de "Return of the King", "Titanic" e "Ben Hur" que ganharam onze) "WEST SIDE STORY", que pega nos conceitos básicos do romance "Romeu e Julieta" de William Shakespeare e cria uma história para recordar todo o sempre e um dos pares românticos mais inesquecíveis de todos os tempos, Tony e Maria.


Com uma energética e dinâmica Nova Iorque nos anos 50 como pano de fundo, "WEST SIDE STORY" foca-se na relação tempestuosa entre dois gangues rivais: os Jets, compostos por descendentes dos imigrantes europeus que se estabeleceram na América no início do século, liderados por Riff (Russ Tamblyn) e os Sharks, recém-chegados porto-riquenhos em busca do sonho americano, liderados por Bernardo (George Chakiris). O filme transforma assim a disputa de duas famílias rivais numa luta entre duas classes sociais distintas, revolucionando a narrativa em termos da sua mensagem, abordando tópicos como o roubo, a delinquência juvenil, a xenofobia e o racismo e conferindo-lhe um estilo muito próprio, bem diferente do romance trágico de Shakespeare, embora conservando os seus fios narrativos essenciais - e adicionando-lhe um toque bem refrescante e inovador, transmitindo as suas ideias sob a forma de música e dança.


No meio da disputa entre os dois gangues encontram-se Tony (Richard Beymer), o melhor amigo de Riff, que apesar de ter abandonado os Jets e decidido procurar trabalho e subir na vida, vê-se envolvido na confusão a pedido de Riff, que põe em questão a sua amizade, e Maria (Natalie Wood), irmã de Bernardo, trazida há bem pouco tempo para a América para poder desposar Chino, o braço-direito de Bernardo, contrariando a vontade de Maria e da sua namorada Anita (Rita Moreno), amiga e confidente de Maria. A falta de química dos dois protagonistas seria, à partida, essencial para o sucesso da história (e atenção que eu sou um enorme fã de Natalie Wood, por isso custa imenso estar a criticá-la); todavia, o espírito e a graça de Rita Moreno e o estilo e irreverência de Russ Tamblyn e George Chakiris convencem-nos a ignorar essa grande fraqueza e a apreciar outros factores que ajudam, no fim de contas, o filme a capturar na perfeição a ingenuidade e a despreocupação da juventude.

 
Apesar da visão ambiciosa por detrás do filme e do grande potencial que tinha, o resultado final peca em defeito. O diálogo sofre de clara falta de inspiração e talento de escrita, servindo apenas como guideline e intermissão entre momentos de música e dança, mas funciona perfeitamente para o propósito do filme (como conseguiu ser nomeado para Melhor Argumento Adaptado eu nunca hei-de saber). Como que a compensar, as cenas musicais, tão igualmente elogiadas (pela crítica) e criticadas (pelos actores, que viram as cenas ser repetidas vezes sem conta pelo realizador Jerome Robbins, que no seu perfeccionismo acabou por ser despedido por ultrapassar o orçamento), são de absoluto encanto e charme. Se "Tonight" e "I Feel Pretty" fazem hoje parte do nosso imaginário (as gerações mais novas reconhecerão estas músicas seguramente pelas suas adaptações na série televisiva "Glee"), "America", "Cool", "Prologue" e "Something's Comin'" são, para mim, os três números musicais definidores do ambiente do filme, a tresandar de paixão, de alma, de fogo e de alegria. As vozes que Marni Nixon e Jimmy Bryant "emprestam" a Natalie Wood e Richard Beymer fazem maravilhas em "Tonight", é certo, mas é a exuberância e a energia de Rita Moreno e George Chakiris em "America" que fazem deste filme tão especial. Curiosamente, as quatro músicas que preferi destacar são as quatro coreografias que Jerome Robbins completou antes de abandonar o filme. São hilariantes, excitantes e fortíssimas, geniais no seu conceito e execução, de facto. Às músicas mencionadas junto ainda a brilhante sátira feita à idiotice e inércia das forças policiais em "Gee, Officer Krupke". Stephen Sondheim e Leonard Bernstein são, sem dúvida, dois dos maiores compositores de sempre.


Merecido vencedor, em 1962, dos Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador (a primeira de apenas duas vezes que uma parceria de realizadores venceria o prémio; os outros foram os irmãos Coen em 2007), Melhor Actor Secundário (Chakiris) e Melhor Actriz Secundária (Moreno), Melhor Banda Sonora, Melhor Fotografia, Melhor Direcção Artística, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Edição e Melhor Som, "WEST SIDE STORY" é uma experiência absolutamente inesquecível e indescritível, repleto de momentos musicais arrebatadores e cenas de dança de cortar a respiração, com uma conclusão agridoce que é, contudo, bastante realista (talvez o meu principal problema com o filme, o facilitismo com que chega a empurrar a sua mensagem para o centro da narrativa, perdendo assim o final do filme - quase - toda a sua potência): com o coração cheio de ódio não se vai a lado nenhum. Gostava que o filme tivesse sido mais risqué e menos politicamente correcto e fã do final feliz. Ainda assim, constitui um feito notável e uma das maiores produções de sempre do cinema americano, uma que tem lugar em qualquer lista dos melhores filmes de sempre. Como musical, nunca desaponta. Como filme... Depende do que se pretender retirar dele.


Nota:
A-

Ficha Técnica:
Realização: Jerome Robbins, Robert Wise
Argumento: Jerome Robbins, Arthur Laurents, Ernest Lehman
Elenco: Natalie Wood (voz: Marni Nixon), Richard Beymer, Rita Moreno, George Chakiris, Russ Tamblyn, William Bramley, Ned Glass
Música: Leonard Bernstein, Irwin Kostal
Fotografia: Daniel L. Fapp
Ano: 1961

1 comentário:

annastesia disse...

A versatilidade de Robert Wise me impressiona.