Dial P for Popcorn: GOSFORD PARK (2001)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

GOSFORD PARK (2001)



"I haven't a snobbish bone in my body!"

A aristocracia britânica nunca teve tanta pinta como no fenomenal "Gosford Park", o penúltimo filme do grande Robert Altman, mestre director de actores, autor consagrado de brilhantes obras-primas como "Nashville", "The Player" ou "Short Cuts". Altman, cujo estilo experimental parecia, à primeira vista, uma combinação desastrosa com o controlado e meticuloso período aristocrático, surpreende todos com um filme que não só é inteligente, audacioso e divertido como também uma análise sofisticada e bastante pejorativa ao sistema de classes hierárquicas britânicos. Pelo meio, Altman reúne um grupo de actores de incontornável talento que só engrandecem ainda mais o resultado final da película. Com Altman, "Gosford Park" não é só o retrato de um homicídio que decorre durante uma festa. É ser convidado para essa mesma festa e poder testemunhar e tirar conclusões por nós mesmos.
"Gosford Park" passa-se então em Novembro de 1932, na luxuosa mansão de Gosford Park, na qual os seus proprietários, Sir William McCordle (Michael Gambon) e Lady Sylvia (Kristin Scott-Thomas) juntaram vários familiares e conhecidos para um fim-de-semana de caça e convívio. Entre os convidados encontrava-se a irmã de William, Lady Constance Trentham (Maggie Smith), uma velha snobe e empertigada com mania de endeusamento que só atura o irmão pela pensão mensal que este lhe dá, o seu primo Ivor Novello (Jeremy Northam), uma estrela de Hollywood que consigo traz o produtor Morris Weissman (Bob Balaban) - que procurava estudar uma família de classe alta britânica como base para o seu próximo argumento - e o seu valete, Henry Denton (Ryan Philippe), as irmãs de Lady Sylvia, Lady Louisa (Geraldine Sommerville) e Lady Lavinia (Natasha Wightman), casadas respectivamente com Commander Anthony Meredith (Tom Hollander) e Lord Raymond Stockbridge (Charles Dance), nenhuma das duas - tal como a irmã - casou por amor mas sim por dinheiro.


Entretanto, no andar de baixo, os criados e servos da casa procuravam acomodar os serviçais que acompanhavam os respectivos convidados, tratados pelo nome do seu patrão, "de acordo com os velhos costumes que a casa segue". Assim, Henry passa a ser tratado por Mr. Weissman e conhecemos ainda a novata e inexperiente nestas lidas Mary , entretanto renomeada Miss Trentham (Kelly Macdonald) e Robert Parks Mr. Stockbridge (Clive Owen), que travam conhecimento com o pessoal da casa, liderado pela governanta, Mrs. Wilson (Helen Mirren), pelo mordomo Mr. Jennings (Alan Bates), pela chefe das camareiras, Elsie (Emily Watson), pela cozinheira Mrs. Croft (Eileen Atkins), pelo chefe dos valetes, Probert (Derek Jacobi) e por Mr. Croft, o faz-tudo (Richard E. Grant). Confuso com tanta personagem? Não há confusão possível - porque Altman nunca nos permite saber mais do que é necessário para apreciar a personagem. Aqui não é preciso compreender os seus motivos - é só deixar-se levar pelos incidentes. E há, de facto, diversos incidentes ao longo das duas horas de enredo. Como já mencionei, Sir William, um homem desprezível e rude, de quem depende (ingratamente) toda a família, é assassinado após o jantar, quando se retira para a sua biblioteca para descansar em paz depois de um jantar algo enervante. 


O filme flui de forma impressionante, sem momentos aborrecidos e envolvendo-nos e tornando-nos cúmplices das histórias e das vidas de cada uma destas pessoas. Faz-nos sentir que nos encontramos realmente a jantar com a nata da aristocracia britânica ao mesmo tempo que parecemos sentir-nos em casa no andar de baixo, a ouvir detrás das portas e a guardarmos os segredos tanto dos patrões do andar de cima como dos serventes do andar de baixo. Toda a gente tem segredos ("Everybody has something to hide", como muito bem diz Probert) - mas, curiosamente (e Altman usa e abusa ironicamente deste pormenor), ninguém tem vida própria. Todos os empregados parecem satisfeitos e contentados com a vida que têm e todos os aristocratas do andar de cima se sentem felizes com esta vida de fingimento e de secretismo na qual tudo o que parece não é. Uns com problemas financeiros, outros com traições e adultério, todos à sua maneira têm problemas. Até o par de investigadores que vem resolver o crime parece saído de um folhetim ou telenovela: o investigador Thompson (Stephen Fry) é o típico chefe incompetente, mais preocupado em passear o seu pomposo ar e fumar o seu chique cachimbo do que procurar por pistas, cometendo até o faux pas de se virar para os empregados da casa e dizer "não se preocupem, ninguém do andar de baixo me interessa, não são ninguém importante". Já Dexter, o seu assistente, aponta incessantemente potenciais pistas em busca de ser elogiado mas acabando sempre ignorado.


Servido com um sentido de humor apudaríssimo a puxar o sardónico, a imaginativa e inteligente construção da narrativa de "Gosford Park" é um verdadeiro testemunho à qualidade do argumento de Julian Fellowes e à visão de Robert Altman, que criou esta ideia com Balaban e explorou a fundo as suas potencialidades. Este filme, que quase se pode considerar (erradamente, aviso) uma versão cinematográfica do grande jogo de tabuleiro Cluedo, é uma autêntica lufada de ar fresco no género de prestige/pedigree britânico que tipicamente nos oferecem as terras de Sua Majestade todos os anos. O revolucionário Altman não deixa que isso aconteça, criando faísca e mobilidade em todas as suas cenas, acompanhando vários personagens ao mesmo tempo, de forma fluída e confiante, como se realmente estivesse na sala com elas e nos estivesse meramente a mostrar o que observa.


Um enorme director de actores, Altman pega no potencial talento em bruto que tem e faz magia. Ninguém consegue convincentemente retratar aristocratas com ironia ácida e pedantes rabugentos como Maggie Smith, da mesma forma que ninguém expressa tão bem uma resposta torta como Maggie Smith - o interlúdio entre ela e quem está sentado à sua mesa, enquanto Novello toca piano, é genialmente cómico; a forma como ela numa primeira fase inocentemente diz "Do you think he'll take just as long as he usually is?" e, mais tarde, quando o aplaudem ela veementemente diz "Don't encourage him!" é tudo o que precisamos saber da personagem. Aliás, as interacções entre ela e Novello são dos momentos mais hilariantes de toda a trama, com ela, que não suporta o charme e a presunção dele, a pô-lo no seu lugar relembrando os seus últimos filmes como fracassos e, à mesa, referindo que ninguém dali veria os seus filmes, portanto não haveria porquê discuti-los com eles. Helen Mirren, Kristin Scott-Thomas, Emily Watson, Michael Gambon, Clive Owen e Kelly Macdonald cumprem imaculadamente os seus papéis e até Ryan Philippe me surpreende pelo à vontade e pela lata do seu personagem. Contudo, sendo este um largo elenco e todos com oportunidades de brilhar, é um grande desserviço estar a seleccionar uns e não outros. Maggie Smith é claramente o destaque - mas não é a única. A fotografia e a banda sonora são sumptuosas e delicadas, tal como a película requeria, todavia aqui o verdadeiro herói - em termos técnicos - é Squyres, o editor, que cola na perfeição todas estas interacções e nunca nos faz saltar um batimento.


Labiríntico, claustrofóbico, denunciador, "Gosford Park" é um filme completamente ao estilo de Robert Altman, ainda que não pareça à primeira vista: é um filme bem mais preocupado com as personagens, as situações e os seus sentimentos do que com o fio narrativo. Até o assassinato passa para segundo plano, tal é a diversidade de conversações que podemos presenciar, das confusões que podemos testemunhar, dos segredos que podemos desvendar. 


Nota:
A-

Ficha Técnica:
Realizador: Robert Altman
Ano: 2001
Argumento: Julian Fellowes, Robert Altman, Bob Balaban
Fotografia: Andrew Dunn
Banda Sonora: Patrick Doyle

1 comentário:

annastesia disse...

Passei a gostar mais com o tempo. Mais uma estripulia de Mr. Altman.